Pequim liberta sob fiança o dissidente Ai Weiwei

Principal nome do cenário artístico chinês, opositor havia sido preso por 'sonegação' há 3 meses na maior onda de repressão das últimas 2 décadas

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2011 | 00h00

A China libertou ontem o artista plástico Ai Weiwei, um dos mais contundentes opositores do regime comunista, cuja prisão há quase três meses iniciou uma onda de protestos mundo afora. Segundo a agência oficial de notícias Nova China, ele foi solto sob fiança em razão de "sua boa atitude em confessar seus crimes" e por sofrer de "doença crônica".

Mais magro, Ai voltou para sua casa no distrito artístico de Caochangdi, na periferia de Pequim, às 23h30 de ontem. O artista disse que estava bem, mas que não poderá dar entrevistas. Essa seria uma das condições para sua libertação, que ocorreu na véspera da viagem do primeiro-ministro Wen Jiabao à Alemanha, Grã-Bretanha e Hungria.

A pressão pela libertação de Ai seria um dos pontos da pauta de discussões da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, cujo governo convocou o embaixador da China em Berlim para dar explicações logo depois da detenção do artista, no dia 3 de abril.

Ai era o mais proeminente entre as dezenas de ativistas presos desde fevereiro na mais ampla campanha contra opositores desencadeada pelo Partido Comunista em pelo menos uma década. O cerco aos dissidentes foi desencadeado pela tentativa anônima e frustrada de reproduzir na China manifestações semelhantes às que levaram à queda de regimes autoritários no mundo árabe a partir de janeiro.

Quatro dias depois de sua prisão, as autoridades de Pequim anunciaram que Ai era investigado por "crimes econômicos", acusação refutada por sua família e amigos, que veem a ação do governo como uma tentativa de calar o artista.

Ontem, a agência Nova China afirmou que a administração da empresa The Beijing Fake Cultural Development, controlada por Ai, "sonegou enorme quantia de tributos e deliberadamente destruiu documentos contábeis". Ainda de acordo com o texto, o artista se comprometeu a pagar as taxas devidas.

Phelim Kine, pesquisador da Human Rights Watch na Ásia, atribuiu a decisão do governo chinês à pressão internacional, mas ressaltou que a atuação do artista a partir de agora deverá enfrentar limitações.

"O fato é que a "libertação" de Ai Weiwei vai quase certamente significar que suas liberdades e direitos continuarão a ser restringidos, violados e desrespeitados", disse Kine em declaração enviada por e-mail.

Artista multifacetado, Ai se expressa por meio de instalações, escultura, fotografia e vídeo. Ele também trabalha como arquiteto, escritor, curador e designer.

Em agosto de 2009, foi espancado pela polícia depois de tentar testemunhar em defesa do ativista Tan Zuoren, condenado a cinco anos de prisão sob acusação de subversão, depois de denunciar a má qualidade das escolas que foram destruídas pelo terremoto de Sichuan, em 2008.

No mês seguinte, Ai foi hospitalizado na Alemanha e submetido a uma cirurgia de emergência no cérebro, onde os médicos encontraram um coágulo, criado provavelmente pelo espancamento sofrido semanas antes.

Muitos dos críticos do regime presos e posteriormente soltos este ano abandonaram seu ativismo e silenciaram, provavelmente em resposta a condições impostas para sua libertação. Outros que cumpriram penas de prisão decretadas antes da atual onda de repressão são mantidos em prisão domiciliar, sem nenhum contato com o mundo exterior - entre os quais o ativista cego Chen Guangcheng, cuja pena de 4 anos e 3 meses expirou em setembro.

QUEM É

Mais célebre artista vivo da China, Ai Weiwei foi um dos idealizadores do Ninho de Pássaros, o estádio que se transformou em ícone da Olimpíada de Pequim, em 2009. O artista é filho do poeta modernista Ai Qing, que ingressou no Partido Comunista em 1941 e participou da guerra civil contra os nacionalistas de Chiang Kai-shek.

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