Pequim revê cifra de mortos, fecha mesquitas e eleva tensão em Xinjiang

Segundo regime, maior parte dos mortos de domingo era han; pequenos protestos voltam a ocorrer em Urumqi

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

10 de julho de 2009 | 00h00

O número de mortos nos distúrbios na capital de Xinjiang no domingo subiu ontem de 156 para 184 e, pela primeira vez, o governo revelou a etnia das vítimas: 137 eram chineses hans - o grupo majoritário da China -, 46 uigures e 1 de outra minoria muçulmana, os huis. Dos mortos hans, 111 eram homens e 26, mulheres. Entre os uigures, havia apenas uma mulher. Os confrontos deixaram ainda mais de mil feridos.A tensão voltou a se elevar ontem em Urumqi com a decisão do governo chinês de fechar as mesquitas da cidade, o que impediu os uigures de realizar as orações de sexta-feira, as mais importantes da semana para os islâmicos. As autoridades também aumentaram o cerco à imprensa e prenderam quatro jornalistas estrangeiros que acompanhavam a manifestação de aproximadamente 20 uigures pela libertação de supostos inocentes presos por causa dos distúrbios.Muitos uigures foram às mesquitas e pelo menos uma delas foi aberta, no Distrito de Shan Xi Xiang, depois de um grande grupo começar a rezar diante da porta do templo. Os uigures estavam revoltados com o fechamento das mesquitas e viram a decisão como um reflexo da repressão religiosa a que se julgam submetidos. Em reação à atitude desafiadora dos uigures, o governo impôs novamente o toque de recolher apenas no bairro de maioria muçulmana de Urumqi, que foi isolado do restante da cidade no fim da tarde. "Sexta-feira é o dia mais sagrado para nós e o único em que podemos ir à mesquita", disse o uigur Alim ao Estado. Segundo ele, as orações da manhã e do fim da tarde podem ser feitas em casa, mas a do meio-dia deve ser realizada em grupo.Alim afirmou que a mesquita só foi aberta porque havia jornalistas estrangeiros perto dela. Mesmo assim, as portas permaneceram fechadas até o fim do período em que as orações deveriam ser realizadas.A poucos metros da mesquita, a reportagem do Estado foi cercada por quase 30 homens uigures, que reclamavam ao mesmo tempo da impossibilidade de rezar juntos na sexta-feira - as mulheres uigures não podem frequentar as mesquitas e devem rezar em casa."Não temos liberdade religiosa. Se trabalhamos para o governo, não podemos rezar e também há restrições nas escolas. Nós não nos sentimos livres", afirmou Kahar, um dos inúmeros uigures que foram à mesquita.A cerca de 50 metros da entrada do templo, duas mulheres uigures que davam entrevistas a um grupo de jornalistas estrangeiros foram cercadas pelos homens que tentavam rezar. Aos prantos e sob aplauso do grupo, elas diziam que muitos uigures foram mortos e vários inocentes estavam presos. Uma das mulheres, Madina Ahban, afirmou que 200 uigures tinham sido assassinados nos dois dias anteriores. A entrevista logo se transformou em uma manifestação e o pequeno grupo começou a caminhar na direção de uma delegacia de polícia, aos gritos de "libertem os inocentes", "libertem nossos irmãos", "libertem nossos parentes".Depois de 200 metros, os manifestantes e os jornalistas foram cercados pelos policiais em uniformes negros, que portavam armas e cassetetes. O comandante do grupo ordenou aos berros que os jornalistas saíssem do local. Os que resistiam eram puxados pelo braço. Uma parede de policiais empurrou parte dos jornalistas para cerca de 100 metros do local, até que os uigures não eram mais visíveis. Outros repórteres caminharam para um local de onde era possível ver a cena e registraram a prisão de cerca de 15 uigures - os demais puderam sair. JORNALISTAS PRESOSQuatro dos jornalistas foram detidos em seguida e levados a uma delegacia, onde permaneceram das 16 horas às 23h30. Durante esse período, puderam usar seus telefones celulares para se comunicar com os demais jornalistas. Antes de serem libertados, ouviram um discurso de um integrante do governo dizendo que eles não deveriam fazer perguntas que pudessem incitar distúrbios e deveriam ter saído do local no momento do início do protesto.

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