'Percebi que os EUA não seriam os mesmos'

Foi clara a percepção de que testemunhávamos algo muito grave

Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

No dia 11 de setembro de 2001, às 12 horas, eu tinha agendado no Pentágono um almoço com o subsecretário Rogelio Pablo Maurer. Mal podia imaginar que naquele mesmo dia a sede do Departamento de Defesa americano estaria em parte destruída pelo choque de um avião pilotado por terroristas.

Na manhã do dia 11, por volta das 9 horas, eu me preparava para ir da residência à chancelaria quando recebi um telefonema do ministro Marcos Galvão sugerindo que visse na televisão o que estava acontecendo em Nova York: um avião chocara-se contra uma das torres do World Trade Center. Liguei a TV e vi uma aeronave bater numa das torres. Como muitos, supus tratar-se de replay, mas, na realidade, o que estávamos vendo era o choque do segundo avião. Fui imediatamente para a embaixada, onde recebi uma série de telefonemas de outros embaixadores.

Naquele momento, tive a clara percepção de que estávamos presenciando um fato de extrema gravidade, totalmente inédito, que afetaria profundamente os EUA e, em decorrência, o mundo todo.

Chegavam rumores de novos aviões sequestrados e explosões em vários locais, como no Departamento de Estado, além de informações sobre o choque de uma terceira aeronave contra o Pentágono. Muitos embaixadores fecharam suas missões. Decidi que ficaria na embaixada com todos os diplomatas e funcionários para, se necessário, ajudar a comunidade brasileira em Washington e entrar em contato com o presidente Fernando Henrique. Só consegui falar com o presidente mais de uma hora depois dos ataques, tal era o congestionamento no sistema nacional de comunicação. O objetivo era descrever o cenário em Washington e transmitir minhas primeiras impressões sobre as reações à tragédia na capital americana. Comentei com o presidente que esses acontecimentos haveriam de repercutir profundamente na política interna e externa americana.

No dia seguinte à tragédia, preocupado em ter notícias do subsecretário Maurer, telefonei-lhe. Para minha surpresa, ele insistiu que nos encontrássemos para almoçar e ver in loco o resultado do ataque ao Pentágono. Ao estilo americano, nosso almoço resumiu-se a um sanduíche com Coca-Cola e saímos para percorrer os interiores do Pentágono e alguns corredores do lado oposto à área destruída. Pude ainda sentir o cheiro forte das cinzas e do querosene no setor em que se localiza o gabinete do Secretário de Defesa. Em seguida, pelo lado de fora, visitei o local do atentado e vi a extensão dos danos.

"Você tem mais sorte do que imagina", disse Maurer, explicando que, por razões burocráticas, não se havia mudado para aquela área e nosso encontro do dia 11 teria ocorrido exatamente no lugar do impacto onde mais de 120 pessoas morreram.

FHC, ainda na manhã do dia 11, enviou mensagem a Bush e fez uma declaração expressando a condenação e o repúdio do governo brasileiro aos ataques, bem como nossa total solidariedade ao povo americano pela morte de tantos civis. A maior preocupação do governo brasileiro naquele momento dizia respeito às consequências econômicas da grave crise e a seu impacto sobre nossa economia, que começava a se recuperar.

A reação do Brasil foi rápida não só na manifestação de solidariedade e nas medidas de cautela tomadas pela área econômica, mas também ao invocar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), assinado em Petrópolis, em 1947. O tratado previa a aplicação de mecanismos de defesa coletiva e de solidariedade hemisférica em caso de ataque a um dos países-membros.

O Brasil apoiou, igualmente, as resoluções adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU contra o terrorismo e passou a atuar nos mecanismos informais criados no esforço antiterrorista, até mesmo quanto ao controle dos fluxos financeiros que poderiam estar servindo às redes de organizações criminosas. Minha impressão inicial de que os EUA jamais seriam os mesmos se confirmou, como pude testemunhar ao longo do restante do tempo que vivi em Washington.

ERA EMBAIXADOR DO BRASIL NOS EUA EM SETEMBRO DE 2001. ESTE RELATO ESTÁ NO LIVRO "O DISSENSO DE WASHINGTON", QUE SERÁ LANÇADO NO DIA 27

Bush avisado

O presidente George W. Bush falava numa escola na Flórida na manhã do 11 de Setembro, quando seu chefe de gabinete, Andrew Card, cochichou-lhe: "O país está sob ataque". Dois minutos antes, um Boeing 767 com 51 passageiros explodira contra a Torre Sul do WTC. O comandante-chefe da maior potência do mundo passou sete minutos sentado, catatônico, segurando um livro infantil

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