'Perdoamos pecados, menos a derrota'

Peronistas são benevolentes com mudança de ideologia e corrupção, mas lealdade tem limite

O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h00

Os peronistas possuem um ditado de circulação interna que indica que os integrantes do movimento criado pelo general e presidente Juan Domingo Perón (1895-1974) são benevolentes perante guinadas ideológicas e casos de corrupção. Mas o ditado indica que a condescendência tem um limite: "Nós, peronistas, perdoamos qualquer pecado, exceto o pecado da derrota".

O único peronista que conseguiu dar-se ao luxo de continuar como líder incontestável mesmo fora do poder foi o próprio Perón, que amargou 18 anos de exílio após ser derrubado por um golpe militar em 1955. De Madri, ele controlou os peronistas na Argentina - por intermédio de ocasionais emissários e discursos em fitas cassete. Ao voltar ao país, em 1973, foi reeleito com 62% dos votos (um recorde até hoje).

No entanto, admitem os peronistas, Perón foi um só. Carlos Menem foi eleito presidente pela primeira vez em 1989 e reeleito em 1995. Mas em 1997 perdeu as eleições parlamentares para a coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso. A partir dali, Menem começou a perder aliados (entre eles, o casal Kirchner) e o poder, com o consequente arquivamento de seus planos para mudar a Constituição e tentar implantar o sistema de reeleições presidenciais indefinidas.

Os peronistas de Menem, os menemistas, começaram a travestir-se como duhaldistas (do ex-presidente Eduardo Duhalde) ou passaram para o Frepaso, partido de centro-esquerda que reunia os peronistas dissidentes da ala centro-esquerda.

Menem, sem poder mudar a Constituição, entregou a presidência em 1999. Na época, controlava 120 deputados. Doze meses depois, em dezembro de 2000, longe da Casa Rosada e das verbas federais, contava com a lealdade de três deles, um sobrinho, seu irmão e uma amiga.

Em 2009 Cristina sofreu com o êxodo de peronistas kirchneristas quando foi derrotada nas eleições parlamentares. Mas, diante da pulverização da oposição, a presidente deu uma virada e, apostando na reeleição em 2011, uniu novamente o kirchnerismo.

No entanto, a derrota nas eleições primárias deste ano deram início a novo êxodo kirchnerista.

A lealdade peronista - considerada a principal commodity do partido que governou a Argentina por 35 dos últimos 67 anos - tem seus limites. E isso é corroborado por outro velho ditado que peronistas costumam citar: "Os peronistas te acompanham até a porta do cemitério, mas não entram". / A.P.

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