Peregrinos xiitas desafiam ataques para chegar à Kerbala

Mais de 1 milhão de xiitas chegaram na quarta-feira à cidade sagrada de Kerbala, desafiando os atentados sectários que mataram cerca de 200 pessoas em dois dias. Em Balad Ruz, localidade habitada por curdos xiitas, um homem-bomba matou entre 26 e 30 pessoas, segundo fontes policiais. A aldeia fica na província de Diyala, habitada por sunitas e xiitas, onde a violência sectária campeia. Pelo menos 25 peregrinos que se dirigiam a Kerbala foram mortos na quarta-feira, sendo dez por um carro-bomba na zona sul de Bagdá, que também matou 12 policiais, de acordo com militares dos EUA. Antes, a polícia informara que a explosão havia matado oito pessoas, sendo sete peregrinos. Na véspera, tiroteios e atentados suicidas haviam matado outros 140 peregrinos, praticamente um ano depois do atentado à mesquita xiita de Samarra, que desencadeou a atual onda de violência sectária, que alguns já qualificam de guerra civil. Apesar dos ataques, os xiitas, oprimidos durante décadas no país, mas agora dominantes na política, disseram que não vão se intimidar. "Esses atos não vão nos conter", disse Jabar Ali, que caminhou durante oito dias de Basra até Kerbala para as cerimônias matinais xiitas, alusivas ao aniversário da morte do neto do profeta Maomé. Durante o regime de Saddam Hussein, essa celebração era proibida. O chefe da polícia local, general Mohammed Abu Al Walid, disse haver cerca de 1,5 milhão de peregrinos na quarta-feira na cidade. O governador Aqil Ali Khazali disse que 10 mil policiais e soldados estão na cidade e nos arredores. Foram montados 60 postos de controle, e há restrição à circulação de veículos no centro. Mohammed Nasra, 31 anos, caminhou durante quatro dias até chegar a Kerbala, que fica 110 quilômetros ao sul de Bagdá. "O clero deveria emitir uma fatwa (sentença religiosa) para convocar as pessoas a ficarem nas suas casas e apenas recitarem o Corão devido à situação", disse ele. "Os xiitas estão sendo alvejados. E esta é uma oportunidade para matar um grande número deles." Nasra afirmou, porém, não ter tido escolha senão peregrinar. "Eu havia feito uma promessa de vir", contou. Um dos principais líderes xiitas do Iraque, Abdul-Aziz Al Hakim, se somou aos peregrinos na estrada um pouco ao sul de Bagdá, onde criticou os ataques. "Mesmo Saddam, com todas as suas instituições e a força, não conseguiu ficar no caminho dessas massas," disse Hakim à TV Furat.

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