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Peres e o fim da esperança

Shimon Peres morreu sem ver o sonho do convívio pacífico entre israelenses e palestinos se concretizar na solução de dois Estados que defendeu até o fim

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2016 | 05h00

Shimon Peres morreu sem ver o sonho do convívio pacífico entre israelenses e palestinos se concretizar na solução de dois Estados que defendeu até o fim. Ganhador do Nobel da Paz, ao lado do líder da Organização pela Liberação da Palestina, Yasser Arafat, e do então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, Peres era o último líder vivo com estatura e expressão mundial capaz de ainda soar convincente ao afirmar que um acordo de paz continuava sendo possível. 

Apesar de conter lacunas e ambiguidades, o Acordo de Oslo, do qual Peres participou ativamente, constituiu um marco histórico num conflito sem fim. Foi o primeiro acordo entre israelenses e palestinos. 

Pela primeira vez, a OLP de Arafat reconhecia o Estado de Israel e este, a OLP como representante do povo palestino. E ambos haviam concordado em superar suas diferenças por meios pacíficos. Esperava-se que avanços sobre questões discordantes fossem conquistados gradualmente por meio de negociações ao longo de um período de transição de cinco anos. Para muitos, era o início de um processo irreversível de reconciliação. 

A declaração de Oslo foi assinada em 1993, na presença do então presidente dos EUA, Bill Clinton. Em 1994, Israel assinou acordo de paz com a Jordânia. No mesmo ano, Peres, Rabin e Arafat receberam o Nobel da Paz. 

Mas a violência não deu trégua. De um lado, a assinatura do acordo foi seguida de uma onda sem precedentes de atentados por grupos palestinos, como o Hamas. De outro, houve a explosão de grupos de extrema direita israelense, que viam o acordo como uma brecha para a criação de um Estado palestino e o esvaziamento de assentamentos judaicos nos territórios ocupados. Em novembro de 1995, Rabin foi assassinado em Tel-Aviv pelo judeu ultraortodoxo Yigal Amir. 

O assassinato de Rabin comoveu a opinião pública, mas não o suficiente para manter no governo seu sucessor, Shimon Peres. O clima de insegurança abriu caminho para o partido conservador Likud voltar ao poder no ano seguinte, sob Binyamin Netanyahu.

Netanyahu assumiu o cargo prometendo suspender futuras concessões aos palestinos. Sob pressão internacional, assinou dois documentos complementares a Oslo, o Protocolo de Hebron, em 1997, e o Memorando de Wye River, em 1998, negociados anteriormente. Mas já no primeiro ano como premiê retomou a expansão de assentamentos. A frustração deu lugar a mais violência. 

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que capitaneou os últimos esforços para retomar as conversas de paz, não conseguiu convencer Netanyahu a congelar os assentamentos como precondição para as negociações. No ano passado, em campanha pela reeleição, o premiê declarou que os palestinos não teriam um estado enquanto estivesse no poder. Mesmo assim, foi reeleito para novo mandato de quatro anos e tem aprovado novas construções desde então.

Além de ilegais sob leis internacionais, os assentamentos são obstáculos à paz. Quanto mais moradores, maior o custo político de sua remoção. De um lado, Israel está se tornando mais religiosa e conservadora. De outro, o número de palestinos em Israel e nos territórios ocupados deve ultrapassar o de judeus até 2020, o que deve aumentar ainda mais a tensão. O governo palestino segue fraturado. Aos 81 anos, Mahmoud Abbas há muito está enfraquecido e não se sabe quem irá sucedê-lo. 

Não é claro se o Acordo de Oslo teria concretizado a paz. Muitos acusaram Peres de ser ingênuo. Mas, diante desse cenário, é ingênuo acreditar que, sem um acordo de convivência pacífica entre israelenses e palestinos, o modelo atual será sustentável.

*ADRIANA CARRANCA. ESCREVE AOS SÁBADOS 

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