Juan Ignacio Roncoroni/EFE
Juan Ignacio Roncoroni/EFE

Quem é Alberto Fernández, o aliado de Kirchner que chegou à presidência argentina

Com perfil moderado, peronista de 60 anos é novo presidente da Argentina após derrotar Mauricio Macri já no primeiro turno

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 17h28
Atualizado 28 de outubro de 2019 | 10h43

BUENOS AIRES - Homem de perfil discreto e há anos afastado da política, Alberto Fernández se tornou presidente da Argentina ao obter 48,03% dos votos e derrotar Mauricio Macri, que teve 40,7%, na eleição deste domingo, 27. O peronista foi eleito em primeiro turno e devolveu o poder à esquerda após quatro anos.

Peronista moderado e pragmático, Alberto Fernández foi a surpresa da eleição na Argentina, despontando como favorito em agosto, ao obter 48% dos votos nas primárias, alavancado por uma oposição peronista unificada e pela ex-presidente e companheira de chapa, Cristina Kirchner.

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Um resultado surpreendente para alguém que disputou uma eleição popular apenas uma vez, em 2000, nas legislativas da cidade de Buenos Aires. Se conseguir repetir no domingo a mesma votação registrada nas primárias, derrotará o presidente em busca de reeleição, Mauricio Macri, já no primeiro turno.

Seu desempenho de mais destaque foi como chefe de gabinete do falecido presidente Néstor Kirchner (2003-2007), assim como de Cristina, em 2008. Rompeu com sua agora vice ao fim do primeiro ano de mandato dela, com declarações duras, em meio ao embate da então presidente com os proprietários rurais e com os grandes meios de comunicação.

Hoje, esse episódio surge como um argumento de demonstração da independência de Fernández, contra aqueles que o acusam de ser uma mera marionete de Cristina.

"Fernández se afastou de Cristina Kirchner em 2008 e renunciou. Ela não conseguiu controlá-lo à época, e muito menos agora", estando na vice-presidência, em caso de vitória, afirmou o analista Raúl Aragón.

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"Liberal, progressista, peronista"

O deputado Daniel Filmus, que foi ministro da Educação com Néstor Kirchner, destaca o presidente eleito como uma pessoa com a qual se pode "bater papo, relaxar, conversar sobre muitos assuntos".

"É um homem que, em diversas circunstâncias, mostrou a capacidade de articular atores muito diversos e de muitas ideias diferentes para estabelecer políticas de médio e longo prazo", afirmou Filmus.

Seus críticos o consideram camaleônico por ter acompanhado setores ultraliberais, como o de Domingo Cavallo, e populistas de esquerda, como o casal Kirchner.

Em sua defesa, Fernández disse que se sente "um liberal de esquerda, um liberal progressista". "Acredito nas liberdades individuais e acho que o Estado tem que estar presente para o que o mercado precisar. E sou um peronista. Estou inaugurando o braço do liberalismo progressista peronista", declarou.

Nas últimas semanas, visitou os líderes da esquerda latino-americana - Luiz Inácio Lula da Silva, o uruguaio José "Pepe" Mujica e o boliviano Evo Morales.

Acalmando os mercados

Na reta final da campanha, Fernández se esforçou para tranquilizar os mercados, temerosos diante da aguda crise econômica que o país atravessa.

Embora seja crítico do Fundo Monetário Internacional (FMI), que em 2018 concedeu um auxílio por US$ 57 bilhões à Argentina, descartou um default como o de 2001.

Também buscou tranquilizar os argentinos. "Vamos cuidar das suas economias, vamos respeitar seus depósitos em dólares. Não têm por que ficarem nervosos", prometeu.

Justiça e Venezuela

Entre suas declarações mais polêmicas, está o questionamento dos processos judiciais contra Cristina Kirchner. "A Justiça não está funcionando bem. Por isso, temos que buscar uma alternativa entre todos", afirmou.

"Isso não quer dizer passar por cima de sua independência, mas vou exigir dos juízes que ajam dignamente", completou.

Senadora desde 2017 e, por isso, com imunidade parlamentar, Cristina está sendo processada em vários casos por suspeita de corrupção. Está em curso um julgamento oral contra ela.

"Agradeço a Cristina", foram as primeiras palavras de Fernández ao falar com jornalistas e militantes entre as grades de sua garagem no bairro de puerto Madero.

No domingo, 27, durante o dia, ele publicou uma foto mostrando a letra L com a mão esquerda, em uma alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias após ser indicado por Cristina, Fernández visitou Lula na prisão em Curitiba.

Também causou polêmica sua posição sobre a Venezuela, depois de ter dito que não há ditadura no país vizinho, mas um "governo autoritário". Segundo ele, em caso de vitória, a Argentina adotará uma postura mais parecida com as de México e Uruguai, que reconhecem Nicolás Maduro como presidente e favorecem um diálogo interno.

Com a Presidência de Macri, a Argentina reconheceu o chefe parlamentar Juan Guaidó como governante interino e tem sido um dos países mais críticos a Maduro.

Privacidade e discrição

Fernández é, há 30 anos, professor de Direito na Universidade de Buenos Aires, onde se formou. Sua vida privada é pouco conhecida, mas seu cão, o collie Dylan, tem contas no Twitter (@dylanferdez) e no Instagram (@dylanferdezok).

Tem apenas um filho, Estanislao, de 24 anos, de uma relação que terminou em 2005. Hoje, vive com a jornalista de Cultura e atriz Fabiola Yáñez, em Puerto Madero, um dos endereços mais nobres de Buenos Aires.

Entre seus hobbies, está tocar violão. Ele compõe canções românticas e é fã do rock argentino. Torce para o Argentinos Juniors, time de onde saíram os craques Diego Maradona e Juan Román Riquelme. / AFP

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