Manuel Claure / Reuters
Manuel Claure / Reuters

Perfil: Evo Morales, uma raposa política com dificuldades para se manter no poder

Presidente latino-americano há mais tempo no cargo busca quarto mandato em uma eleição difícil

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 11h41

LA PAZ - Evo Morales é o presidente latino-americano há mais tempo no poder e quer continuar assim. Há 13 anos mostra sua astúcia política, empatia com os pobres e bom gerenciamento dos lucros da exportação de matérias-primas para China.

Em suas reuniões, continua acompanhado de xamãs, que realizam cerimônias andinas enquanto ele inicia os trabalhos. No entanto, a poucos dias das eleições gerais, realizadas no domingo, sua sorte parece estar se esgotando.

Evo, de 59 anos, assumiu em janeiro de 2006 como o primeiro mandatário indígena da Bolívia, em meio a uma onda de vitórias da esquerda, que atravessou a região com a mudança de milênio. 

Seus companheiros de ideologia foram ficando pelo caminho, no Brasil, Argentina e Equador. A Venezuela, com quem Evo mantém um vínculo estreito, está mergulhada na pior crise política e econômica de sua história recente.

"Mas a Bolívia é diferente, estamos bem", diz Evo e assim repetem seus partidários nas ruas. "Pedimos mais cinco anos para aproveitar nossa experiência (...). Não me abandonem", é seu mantra nos últimos dias da campanha para uma eleição difícil.

O governante de origem aymara e leal aliado político de Cuba e da Venezuela busca no domingo seu quarto mandato, um verdadeiro recorde na Bolívia desde a independência do país em 1825. 

Seu principal adversário é o ex-presidente, jornalista e ex-porta-voz da disputa marítima com o Chile, Carlos Mesa.

Raposa política

Os opositores veem em Evo um caráter teimoso, o que o impede de reconhecer seus erros, e o acusam de incorporar um governo antidemocrático que está empurrando o país para ser uma "segunda Venezuela" na região. 

Já os seus partidários o atribuem quase o dom da infalibilidade. É uma raposa política, que conseguiu aproveitar principalmente a prosperidade econômica do país, após decretar a nacionalização dos hidrocarbonetos, poucos meses depois de assumir o poder.

O vice-presidente, Álvaro García, que acompanha Evo desde 2006, garantiu, no fim de 2013, que "o presidente Evo é a unidade do corpo de Túpac Katari (líder aymara desmembrado em 1781) e "a ressurreição do povo indígena". Foi Katari quem disse a famosa frase, antes de ser esquartejado: "Só vão me matar, mas amanhã voltarei e seremos milhões".

Em 2018, Evo abriu a "Casa Grande del Pueblo", um arranha-céu de 29 andares com heliponto que chama atenção no centro histórico de La Paz, substituindo o Palácio Quemado, centro do poder político desde o século 19, como a nova sede presidencial. O local é conhecido na Bolívia como "Palácio de Evo".

De criador de lhamas a presidente

Evo conheceu a pobreza desde que nasceu, no dia 26 de outubro de 1959, no povoado de Isallavi, na região andina de Oruro. Criador de lhamas quando criança e depois vendedor de sorvete, fabricante de tijolos e trompetista de um grupo de música local, chegou a Chapare, coração cocaleiro da Bolívia, para se dedicar ao cultivo.

Acabou se envolvendo no meio sindical, onde começou sua carreira política em 1995, como deputado nacional. Em 2002 lançou pela primeira vez sua candidatura à presidência, alcançando o segundo lugar.

Quatro anos depois, em 2006, derrotou nas urnas o candidato da direita, Jorge Quiroga, com 54% dos votos, e chegou à presidência. 

Em 2008, durante uma entrevista para a imprensa estrangeira, Evo disse que quando era criança, aos 11 ou 12 anos, sonhou que voava por sua terra natal. Ao contar o sonho a seu pai, ele disse: "Evito, você vai ficar bem, respeite os maiores e menores, você vai bem em teu futuro".

Evo não chegou à universidade e têm grandes problemas para ler um discurso em público. Prefere improvisar e repetir frases sobre o sucesso econômico de seu governo, a estabilidade política e os inimigos internos (a direita) ou externos (os Estados Unidos) que "o perseguem". Pairam sobre ele, após quase 14 anos no poder, denúncias de corrupção no governo. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.