AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI
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Perfil: Ican tenta proibir e eliminar armas nucleares há 10 anos

Coalizão internacional que reúne centenas de organizações humanitárias, ecologistas e pacifistas, ganhou o prêmio Nobel da Paz deste ano

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2017 | 11h48

GENEBRA - O combate incansável para proibir e eliminar armas nucleares rendeu à Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican) o prêmio Nobel da Paz deste ano, no momento em que este tipo de armamento representa uma ameaça que não era vista em muitas décadas.

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Há 10 anos, este grupo faz um alerta para pedir a "eliminação" destas armas de destruição em massa. A Ican é uma coalizão internacional que reúne, em mais de 100 países, centenas de organizações humanitárias, ecologistas, defensores dos direitos humanos, pacifistas e pessoas a favor do desenvolvimento.

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A luta da campanha resultou em julho em uma vitória na ONU, quando 50 países iniciaram o projeto de assinatura de um tratado de proibição das armas atômicas. O alcance é simbólico, já que as nove potências nucleares - EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte -, que somam ao todo 15 mil armas nucleares, boicotam o texto. O pacto não entrará em vigor até que os 50 países ratifiquem o tratado.

"Ainda não acabamos. O trabalho não vai acabar enquanto existirem armas nucleares", declarou Beatrice Fihn, diretora da Ican. A tensão recente entre EUA e Coreia do Norte pelo programa atômico de Pyongyang é, segundo ela, um "sinal de alarme". "As armas nucleares podem levar o mundo ao fim, literalmente.”

Êxito histórico

Constituída oficialmente em 2007 em Viena, à margem de uma conferência internacional do Tratado sobre a Não Proliferação das Armas Nucleares (TNP), a Ican soube mobilizar desde então ativistas de todo o mundo, assim como personalidades influentes.

O arcebispo sul-africano e Nobel da Paz Desmond Tutu, o músico de jazz Herbie Hancock e o Dalai Lama são alguns dos que apoiam a organização, que tem sede em Genebra, no complexo do Conselho Ecumênico das Igrejas, perto das Nações Unidas.

Há uma década, quando o movimento antinuclear estava bastante fragmentado, a Ican conseguiu reunir os ativistas com um objetivo comum: proibir e eliminar as armas nucleares, como já aconteceu com as armas biológicas e as minas terrestres.

Os esforços deram fruto em julho, com a adoção por 122 países do novo tratado que proíbe esses armamentos, apesar da oposição dos EUA e de outras potências nucleares.

Para Beatrice, este "ponto de partida é um verdadeiro êxito histórico". "Quanto mais países conseguirmos reunir, mais a opinião pública mudará e pensará que é inaceitável. E será mais difícil para os Estados que dispõem de armas nucleares apresentarem uma justificativa", completa.

As potências nucleares não são as únicas afetadas. De acordo com a Ican, cinco países europeus têm em seus territórios armas nucleares americanas, em virtude de um acordo no âmbito da Otan.

Além disso, outros 20 países afirmam que sua segurança depende delas, segundo a coalizão. Isto sem contar que alguns possuem reatores nucleares ou de pesquisa que podem ser alterados de seu uso civil para a fabricação de armas.

O uso das armas nucleares teria consequências catastróficas. "Se apenas uma bomba nuclear explodir em uma cidade grande, poderia matar milhões de pessoas. O uso de dezenas ou centenas destas bombas alteraria radicalmente o clima mundial, provocando uma fome generalizada", alerta o Ican em seu site.

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Ao mesmo tempo, os programas dedicados às armas nucleares desviam, segundo os ativistas, recursos públicos da previdência social, educação, ajuda aos desabrigados e outros serviços essenciais.

Os nove países com armas nucleares gastam mais de US$ 105 bilhões todos os anos na manutenção e modernização de seus arsenais, segundo a Ican, financiada por doadores privados e contribuições da União Europeia (UE) e de vários Estados como Noruega, Suíça, Alemanha e Vaticano. O orçamento da organização supera US$ 1 milhão por ano. / AFP

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