Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Perfil: Joe Biden não quer, nem propõe uma revolução, mas ainda pode vencer 

Como foram definidas suas últimas campanhas, Biden se apresenta como uma alternativa; nem um socialista, nem um Trump.

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2020 | 21h13

ASHINGTON - O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden entrou em abril na disputa pela candidatura democrata para a Casa Branca como um favorito instantâneo, deixando para trás os outros candidatos e aumentando a pressão para aqueles com desempenho mais modesto.

Biden, de 77 anos e senador de longa data que serviu por dois mandatos como vice do presidente Barack Obama, anunciou sua candidatura em um vídeo no qual exaltou a determinação em derrotar o atual presidente, o republicano Donald Trump.

“Estamos numa batalha pela alma desta nação”, disse Biden. “Eu acredito que a história vai olhar para trás, sobre os quatro anos desse presidente e tudo que ele representa, como sendo um período bizarro. Mas se dermos a Donald Trump oito anos na Casa Branca, ele vai para sempre e essencialmente alterar o caráter desta nação, quem nós somos, e eu não posso ficar de lado e esperar que isso aconteça.”

Trump respondeu com uma postagem no Twitter em que disse “bem-vindo à corrida Joe Preguiçoso” e questionou a inteligência de Biden.

O lançamento da campanha ocorreu antes mesmo de Biden ver o nome de seu filho Hunter envolvido em um caso que se tornou central no processo de impeachment de Trump. O atual presidente americano acusou Hunter, que era do conselho de administração de uma empresa ucraniana de gás, de estar envolvido em corrupção. Uma queixa de um delator apontou que Trump usou seu cargo para pedir a interferência de Kiev para abrir uma investigação sobre o caso, o que poderia prejudicar Biden politicamente, seu possível adversário. 

Na longa lista de pré-candidatos democratas, que chegou a ter 20 nomes, Biden tem como um dos principais aversários o senador Bernie Sanders, do Vermont, que se descreve como “socialista democrata”. A disputa entre os dois, tidos como os principais postulantes, deixa claro o conflito entre as alas moderada e progressista do partido.

Embora Biden ainda precise deixar claras suas propostas políticas, ele apoia muitas das pautas valorizadas pelos progressistas, entre elas o salário mínimo, o combate às mudanças climáticas, a proibição de armamentos mais pesados e a universidade pública gratuita.

Sua candidatura enfrenta, porém, vários questionamentos, entre os quais se ele é velho demais e muito ao centro para um partido cada vez mais impulsionado por sua ala liberal.

Em um comunicado, Obama disse que a escolha de Biden como seu vice em 2008 foi uma das melhores decisões que já tomou.

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Como foram definidas suas últimas campanhas, Biden se apresenta como uma alternativa. O ex-vice-presidente não é um socialista, mas também não é um Trump. Ele é Joe Biden, um dos estadistas mais velhos do país que já vê seu nome batizar alguns lugares. As pessoas o conhecem pelo melhor e pelo pior. Repetidas vezes, disse ser o que e está mais preparado para impedir que Trump consiga mais um mandato, o que seria uma aberração, na sua opinião. 

"Você sabe, eu estou aqui há muito tempo, essa é a má notícia", disse Biden certa vez. "Mas a boa notícia é que eu também estou aqui há muito tempo", mostrando gostar das construções de más/boas notícias. "A má notícia é que todo mundo me conhece", diz, começando outra. "A boa notícia é que todo mundo me conhece."

E isso define um ponto simples e fundamental sobre a campanha de Biden: sobrevivência. Ele ainda está na liderança, apesar de tudo - apesar de si mesmo. Kamala Harris, aparentemente, o "destruiu" em um debate no verão passado, com uma crítica sobre sua posição supostamente racista há mais de quatro décadas (uma posição que, para alguns, não era diferente da dela). Julián Castro o atacou em outro, falando sobre sua falta de memória. Os dois pré-candidatos já não estão mais na disputa. "Eu ainda estou aqui", disse Biden. "E ainda estou ganhando."

A campanha de Biden opera em um vasto escritório, espalhado por um único andar em um prédio na Filadélfia, não muito longe da estação de trem Amtrak. Como a maioria das sedes de campanhas de destaque hoje em dia, a de Biden não possui marcações ou sinalizações visíveis do lado de fora, para evitar protestos indesejados. Os três guardas de segurança do saguão disseram que não tinham ideia de que a campanha de Biden estava localizada no edifício.

Uma aura de fatalismo percorreu o início da campanha de Biden, começando com o próprio candidato. Ele já passou por cinco décadas de trabalho político e muito mais na vida. "Eu poderia cair morto amanhã", disse Biden a uma multidão de Iowa, como costuma fazer em seus comícios - uma fala curiosa de alguém que tenta acalmar os medos sobre sua idade. Isso pode ou não funcionar. Mas não importa quem os democratas indiquem, ele diz, ele ou ela será atacado sem piedade. Ele já passou por isso.

A outra questão fundamental para a campanha foi quanto falar sobre o próprio Trump. Após as eleições de meio de mandato de 2018, assumiu-se entre os democratas que eles deveriam se concentrar em questões centrais, como cuidados com a saúde e mudanças climáticas, e limitar a discussão sobre Trump. "E Biden, por outro lado, dizia: 'Não, não é por isso que estou correndo'", diz Mike Donilon, o principal estrategista da campanha. "Esta é uma batalha pela alma do país e pela ameaça que Trump representa para ele."

Não há nada na campanha de Biden sobre mudar paradigmas, nem nenhuma "teoria" elegante, ou uma grande ideia revolucionária,  ou um conto histórico que o rodeie. Se houver uma noção audaciosa em torno da campanha, é a vontade de Biden de falar sobre a unificação do país. 

Há ainda um número expressivo este ano do que os pesquisadores democratas estão chamando de "eleitores de elegibilidade", pessoas que valorizam a capacidade percebida de um candidato de derrotar Trump - outra vantagem para Biden, para quem o Partido Democrata mudou irreversivelmente para a esquerda depois de 2016. "É o que eu nunca entendo direito", disse ele. "Nunca vi dados concretos relacionados a isso."

De fato, a maioria dos democratas que conquistou cadeiras no Congresso em 2018 era mais popular, centrista que tinha muito mais em comum com Mitt Romney do que com qualquer membro do chamado "esquadrão de mulheres progressistas" do Congresso. Se essa dinâmica retornar em 2020, pode ser que Biden seja um ajuste para o momento.

Caso contrário, seria difícil explicar o grau de apoio que a campanha de Biden está contando entre os eleitores afro-americanos, caso ele se saia mal nos redutos brancos de Iowa e New Hampshire. Especialmente na Carolina do Sul, os eleitores negros representam aproximadamente 60% do eleitorado democrata. 

Pode não haver lugar mais essencial para as perspectivas de Biden, da mesma forma que o Estado foi - depois de Iowa - o maior responsável por levar Obama à nomeação em 2008. Biden tem uma vantagem duradoura nas pesquisas estaduais, derrotando seus oponentes em várias delas. Ele estava à frente de Sanders, seu concorrente mais próximo, por 32% a 15%.

Biden tem apelo natural entre os eleitores afro-americanos, entre os quais ele é extremamente conhecido por sua estreita associação com Obama. Mas segundo a analista Kate Bedingfield, a profundidade do apoio de Biden entre esses eleitores vai muito além do ex-presidente. 

Ela citou seu trabalho como defensor público, seus esforços no Senado para reautorizar a Lei dos Direitos de Voto e seu longo relacionamento com a comunidade afro-americana em Delaware, além da ampla rede de relacionamentos de Biden com líderes políticos negros em todo o país. Ele recebeu o apoio de 52% dos eleitores das primárias democratas negras em uma pesquisa nacional da Economist/YouGov atualizada na segunda quinzena de janeiro (Elizabeth Warren ficou em segundo, com 13%).

Há uma crença em Biden de que ele já passou por alguns dos destinos mais cruéis que podem acontecer a um homem - em 1972, perdeu a mulher, Neilia, e a filha Naomi, de 13 meses, em um acidente de carro; em 2015, perdeu o filho mais velho, Beau, de câncer no cérebro - o que poderia machucá-lo ainda mais? 

Seu histórico de vida empresta a ele um ar de ser, se não à prova de balas, de alguém que pode flutuar um pouco acima das pressões e demandas do momento. E daí se ele perder uma campanha? Não chegaria nem perto de ser a pior coisa que já aconteceu com ele. "Isso é verdade", disse ele. "Olha, a ideia de perder uma eleição, perder uma discussão, perder - quero dizer - Cristo!."

Por outro lado, há algo a mais que vem surgindo ultimamente. "Está começando a depositar em mim agora", disse ele. "Se eu sou o candidato, tenho uma obrigação tão avassaladora...de vencer", disse Biden, parecendo temer que pudesse encontrar o mesmo destino histórico de Hillary Clinton - o democrata do ano que consegue perder para Donald Trump.

Por um segundo, os apertados olhos azuis de Biden se arregalaram em um flash de inquietação. Era como se essa perspectiva nunca tivesse lhe ocorrido antes.

"Não é assim: eu perco a corrida, também perdi a corrida para John McCain, ou perdi a corrida para - quem quer que seja", disse Biden. Ele fez uma pausa. "Mas, Deus, sabe?"/Reuters e New York Times

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