REUTERS/Christian Hartmann
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Perfil: Macron, um comandante monarca que vê na França uma ‘nação start-up’ 

Novo chefe de Estado planeja retorno da figura do estadista que delega poderes, mas quer país na vanguarda digital

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 05h00

Depois de Nicolas Sarkozy, o “hiper-presidente”, e de François Hollande, o “presidente normal”, Emmanuel Macron já dá indicações de qual será seu estilo à frente do Palácio do Eliseu. O vencedor das eleições planeja retornar às origens da Quinta República, criada por Charles de Gaulle, na qual o presidente exerce papel de chefe de Estado que assume as decisões estratégicas, mas delega a gestão ao primeiro-ministro. É o retorno do “presidente monarca”, típico da França.

As características do cargo de chefe de Estado foram estabelecidas por De Gaulle, em 1958. Para por fim à instabilidade da Quarta República, marcada pelas quedas frequentes de premiês em razão de um Parlamento fragmentado, o general reformou a Constituição, reforçando o poder do presidente e enfraquecendo o primeiro-ministro, salvo em casos de “coabitação”, quando a oposição tem maioria parlamentar e pode designar o premiê.

Pelo plano original, o presidente seria uma espécie de monarca republicano, que se preocupa com as grandes questões de política externa e defesa. Além disso, ele teria o direito de nomear o premiê, que então escolhia ministros e implementava a política do presidente.

“De Gaulle era monarca antes de ser republicano – o que não o impedia de ser profundamente democrata. O estilo do general era, antes de mais nada, magistral e era assim que ele concebia a condução do ‘velho país’”, escreveu em artigo no jornal Le Figaro Arnaud Benedetti, professor da Universidade Paris-Sorbonne, especialista em Comunicação. 

Ao longo do tempo, o papel do presidente acabou mudando, cada vez mais concentrando o poder. O ápice aconteceu com Nicolas Sarkozy, entre 2007 e 2012, um presidente voluntarista e midiático, que recebeu a alcunha de hiper-presidente. Em seu mandato, a concentração de poder foi tamanha que ele chegou a se referir a seu premiê, François Fillon, como seu “ colaborador”, minimizando seu papel.

Sucessor do hiper-presidente, Hollande chegou ao Palácio do Eliseu com o objetivo de mostrar que, em vez de um chefe de Estado que posava como superpoderoso, era possível ter à do governo um “presidente normal”, ou seja, um cidadão como os demais. O símbolo dessa suposta “normalidade” veio logo após sua posse, quando Hollande tomou um banho de chuva de embaçar os óculos durante seu desfile em carro aberto pela Avenida Champs-Elysées. 

Hoje, Macron chega ao poder determinado a devolver a solenidade do cargo, recuperando o espírito altivo do gaullismo. Na sua visão, o presidente delega responsabilidades a seu primeiro-ministro, que terá como missão fazer avançar as reformas políticas e econômicas e o controle dos gastos públicos. 

Após sua vitória, o novo presidente imprimiu um tom grave em seu discurso no Museu do Louvre, multiplicando as referências ao estilo de François Mitterrand – outro que cultivava o tom austero do cargo.

Isso não significa, entretanto, que o novo presidente vá se enredar em tradições. O movimento En Marche!, seu partido, funciona como uma start-up e o próprio presidente ressaltou várias vezes a intenção de fazer da França, no século 21, uma “nação start-up”, que ele define como aberta, globalizada, digital, dinâmica e competitiva. 

A dúvida entre analistas políticos na França é saber se, com Macron, a vontade de delegar o poder tem mais a ver com o estilo monárquico de Charles de Gaulle ou com o estilo descentralizador do fundador de uma start-up. 


 

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