EFE/Stf
EFE/Stf

Perfil: Manuel Noriega, de colaborador da CIA a ditador ligado ao tráfico de drogas

Ex-líder passou grande parte do fim de sua vida sob custódia nos EUA, na França e no Panamá por crimes que foram de assassinato a extorsão e narcotráfico

O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 10h22

CIDADE DO PANAMÁ - O ex-ditador panamenho Manuel Noriega foi uma ferramenta útil aos EUA durante anos, até que o presidente George H. W. Bush perdeu a paciência com o governo brutal e o envolvimento do líder com o tráfico de drogas, e enviou quase 28 mil soldados para invadir o país e derrubá-lo do poder.

Noriega, cuja morte aos 83 anos foi anunciada no fim da segunda-feira 29, foi capturado por forças americanas em janeiro de 1990, duas semanas depois da grande invasão. Ele passou praticamente o resto da vida sob custódia nos EUA, na França e no Panamá por crimes que foram de assassinato a extorsão e narcotráfico.

Com o conhecimento de autoridades dos EUA, Noriega formou "a primeira narcocleptocracia do hemisfério", disse um relatório de uma subcomissão do Senado americano, que o qualificou como "o melhor exemplo da política externa recente do país de como um líder estrangeiro é capaz de manipular os EUA em detrimento de nossos próprios interesses".

Após sua captura, Noriega tentou mudar a situação nos EUA, dizendo que havia trabalhado de mãos dadas com Washington. "Tudo que foi feito na República do Panamá sob meu comando era conhecido", disse ele. "O Panamá era um livro aberto.”

Quando voltou a seu país em uma cadeira de rodas em dezembro de 2011, Noriega era apenas uma sombra do general de Exército forte que brandia um facão durante comícios. Em 2015, ele pediu ao Panamá que o perdoasse por sua atuação no governo.

O ex-líder passou o resto da vida na solitária pelos assassinatos de centenas de opositores até ser solto e colocado em prisão domiciliar por três meses em janeiro para ser preparado para uma operação no cérebro. Sua morte resultou de complicações de uma cirurgia para a retirada de um tumor.

Carreira. Nascido em San Felipe, bairro violento da Cidade do Panamá, no dia 11 de fevereiro de 1934, a menos de dois quilômetros da zona do canal do Panamá, controlada pelos EUA, Noriega foi criado por um amigo da família.

As muitas espinhas que teve na adolescência lhe deixaram cicatrizes profundas e renderam o apelido de "Cara de Abacaxi". Jovem pobre, mas brilhante, ele não teve muitas oportunidades até que um meio-irmão o ajudou a entrar nas Forças Armadas.

Com a sabedoria das ruas e sangue frio, Noriega revelou ter um talento precoce para as chamadas "psyops" - operações de guerra psicológica - e desenvolveu um interesse duradouro pelos líderes asiáticos Mao Tsé-Tung e Ho Chi Minh e por Genghis Khan, líder guerreiro mongol do século 13.

Um de seus primeiros cargos foi sob o comando de Omar Torrijos, que tomou o poder com um golpe em 1968 e indicou Noriega como chefe da inteligência militar. Ele supervisionou os corruptos acordos ilícitos do Exército e comandou sua implacável polícia secreta.

Apelidado de "meu gângster" por Torrijos, Noriega orquestrou o desaparecimento de dezenas de opositores, alguns dos quais tiveram seus corpos exumados na antiga base militar de Tocumen, amarrados e com sinais de tortura.

Colaborador pago da CIA desde o início dos anos 1970, Noriega a princípio trabalhou de perto com Washington, permitindo que forças americanas instalassem postos de escuta no Panamá e usassem o país para direcionar ajuda às forças pró-EUA em El Salvador e na Nicarágua. Usando estas informações, Noriega manipulava tanto os panamenhos quanto seus chefes americanos em benefício próprio.

Torrijos morreu em um acidente de avião em 1981, e Noriega assumiu o comando de fato dois anos mais tarde. Àquela altura, ele já havia começado a ajudar chefes do narcotráfico da Colômbia, como Pablo Escobar, a contrabandearem cocaína para os EUA e a lavar o dinheiro das drogas nos bancos do Panamá, recebendo milhões de dólares de suborno.

As autoridades dos EUA sabiam de alguns de seus acordos criminosos já em 1978, de acordo com depoimentos, e até 1983 tinham "uma saraivada de 21 tiros de canhão de provas" contra Noriega. Mas inicialmente Washington preferiu não agir, em parte porque o Panamá era visto como um tampão contra insurgências de esquerda na América Central durante a Guerra Fria.

As tensões com os americanos começaram a crescer em 1985, quando Noriega rejeitou Nicolás Ardito Barletta, o primeiro presidente panamenho eleito democraticamente em 16 anos. A eleição havia sido uma precondição dos EUA para devolver o controle do Canal do Panamá.

Em dezembro de 1989, a Assembleia Nacional do Panamá nomeou Noriega como "líder máximo" e declarou que EUA e Panamá se encontravam em "estado de guerra". No dia 20 do mesmo mês, tropas americanas dominaram o quartel-general do Exército na "Operação Justa Causa" e reviraram a capital para encontrar Noriega.

Em fuga, ele procurou refúgio na embaixada do Vaticano - vestido de mulher, segundo boatos -, e as forças dos EUA o obrigaram a se render no dia 3 de janeiro de 1990.

Em 1992, Noriega foi condenado na Flórida a 40 anos de prisão. Ele cumpriu 17 anos antes de ser extraditado para a França em 2010, onde havia sido sentenciado por lavagem de dinheiro, e em 2011 foi enviado de volta a uma prisão do Panamá. Em janeiro Noriega conseguiu transferência para prisão domiciliar na casa de uma de suas três filhas, antes de se submeter à operação para remover o tumor no cérebro. / REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.