EFE/Stf
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Perfil: Manuel Noriega, de informante da CIA a ditador

Ligação do militar panamenho com cartéis de drogas o tornou um forte inimigo do então presidente americano George H. W. Bush, que era criticado por pegar muito leve com a guerra às drogas

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 05h20

Como um colaborador na folha de pagamento da CIA se tornou um ditador inimigo do governo americano? "Essa é uma longa e triste história", afirmou ao Estado Russell Crandall, ex-diretor principal de Hemisfério Ocidental no Departamento de Defesa americano.

"Manuel Noriega foi útil durante a Guerra Fria como uma fonte de inteligência em Cuba, especialmente. Mas suas ligações com cartéis de drogas o tornou um forte inimigo para o presidente George H.W. Bush, que era criticado por pegar muito leve com a guerra às drogas."

Durante seu período de colaboração com a CIA no início dos anos 70, agiu como um facilitador para fazer chegar forças pró-americanas a El Salvador e Nicarágua. Usando essas informações, Noriega manipulou seus superiores panamenhos e americanos. Sua forma de agir lhe rendeu apelidos pouco carinhosos como “coronel de aluguel” e “prostituta do Caribe”. 

Dois anos após o líder da Revolução Panamenha Omar Torrijos morrer em um acidente de avião, sob circunstâncias consideradas suspeitas, em 1981, Noriega passou a atuar como o líder de fato do país. Nessa época, ele já colaborava com Pablo Escobar, chefe do cartel de Medellín, e o ajudava a traficar cocaína para os EUA. 

Como lembra reportagem da agência Reuters, as tensões com os EUA começaram a desandar em 1985 quando Noriega não aceitou a vitória de Nicolas Ardito Barletta nas primeiras eleições democráticas do país em 16 anos. A eleição era vista pelos EUA como uma pré-condição para retomar o controle sobre o Canal do Panamá. Noriega tomou poder e deu início à sua ditadura. 

Capturado pelas tropas americanas, Noriega foi levado para os EUA, julgado e condenado a 40 anos de prisão por extorsão, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Depois de passar 17 atrás das grades, teve sentença reduzida por bom comportamento. 

Noriega foi extraditado para a França em 2010, onde também foi condenado por lavagem de dinheiro. No ano seguinte, foi extraditado para o Panamá, onde morreu seis anos depois após sofrer complicações durante uma cirurgia para retirar um tumor no cérebro.


Pouco antes da invasão americana, a Subcomissão de Terrorismo, Narcóticos e Operações Internacionais da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, em uma crítica ao governo Bush, afirmou que Noriega formou, com a anuência de autoridades dos EUA, a “primeira narcocleptocracia do hemisfério”. 

“Trata-se do melhor exemplo nos anos recentes da política externa americana de como um líder estrangeiro foi capaz de manipular os EUA em detrimento de nossos próprios interesses”, afirmou o relatório da subcomissão, em dezembro de 1988

Após sua captura, em 3 de janeiro de 1990, Noriega disse que tudo que fez em seu país – desde seu período de informante da CIA até se tornar ditador – era sabido pelos EUA. 

“Panamá era um livro aberto”, disse ele. 

 

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