Ronaldo SCHEMIDT / AFP
Ronaldo SCHEMIDT / AFP

Perfil: Mauricio Macri, o empresário liberal atingido pela crise econômica

Com país mergulhado em uma grave crise desde 2018, imagem do presidente não parou de se deteriorar; se perder eleição, enfrentará o dilema de liderar a oposição, ou se aposentar da vida política

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 18h03

BUENOS AIRES - Filho da elite empresarial da Argentina, o presidente Mauricio Macri tem sido o grande defensor do liberalismo no país e agora, diante de uma improvável reeleição, prega insistentemente a necessidade de defender a abertura econômica e os valores da república e da democracia.

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Com o país mergulhado em uma grave crise econômica desde 2018, a imagem de Macri não parou de se deteriorar, e nenhuma pesquisa aposta em sua vitória nas eleições presidenciais de domingo, 27.

Com seu caráter decidido, ressalta, porém, que "a eleição ainda não aconteceu" e assegura que dará a volta por cima depois das primárias de agosto. Nelas, o peronista de centro esquerda Alberto Fernández venceu com 48% dos votos e se estabeleceu como favorito à presidência.

Seu triunfo há quatro anos foi visto como um marco nesse país em que apenas os peronistas, ou radicais, haviam governado em democracia, e também marcou o início de uma guinada à direita para os países sul-americanos, após mais de uma década de governos de esquerda.

Agora, com a região em ebulição, Macri reconhece que suas medidas de austeridade foram duras. Ele afirma, contudo, que o pior já passou e pede aos eleitores uma nova oportunidade para "terminar a tarefa, agora que estabelecemos bases sólidas".

A desvantagem da riqueza

Engenheiro de 60 anos, Macri nasceu em uma família rica. Estudou nas mais prestigiosas escolas e universidades, trabalhou na empresa familiar, uma construtora, e sempre esteve com belas mulheres. Por essa vida privilegiada, seus opositores o acusam de viver fora da realidade e de ser insensível às dificuldades econômicas dos argentinos.

"Macri é marcado por sua história. Ser rico inevitavelmente o coloca em um lugar. Isso não significa que ele governa para os ricos, mas na Argentina da fome é uma desvantagem, porque há coisas que ele só pode ver se lhes for dito", comenta Pablo Knopoff, do instituto de pesquisa Isonomia.

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"Macri não frequentou escolas públicas, nunca frequentou hospitais públicos, nem se locomoveu com o transporte público. Ele é um político estranho, que aos 17 anos não colava cartazes nas ruas", explicou Knopoff. 

As conexões familiares facilitaram seu bom relacionamento com o presidente americano, Donald Trump, que ele conheceu anos atrás em razão dos negócios no setor da construção de seu pai, Franco Macri.

Com Christine Lagarde, que esteve à frente do Fundo Monetário Internacional (FMI), manteve um relacionamento fluido, para incômodo de muitos que na Argentina atribuem grande parte de seus males a esse organismo.

Tecnocratas

Para armar sua equipe governamental, Macri contou com um grupo de ex-executivos de grandes empresas e economistas liberais, com os quais se propôs a abrir a economia argentina, até então uma das mais protecionistas da América Latina. "Para Macri, o técnico prevalece sobre o exercício mundano da política", segundo Knopoff.

Ele estudou no colégio Cardeal Newman de Buenos Aires, onde as elites são formadas. Entre seus colegas de classe, vários se tornaram seus ministros. Graduou-se na Universidade Católica e se especializou em Columbia, em Nova York.

Foi executivo do Citibank e gerente do grupo de construção Macri. Presidiu o popular clube de futebol Boca Juniors entre 1995 e 2007, período de maior sucesso da equipe, com 17 troféus, incluindo 11 internacionais. Essa experiência serviu de trampolim para a carreira política, que começou como prefeito de Buenos Aires (2007-2015).

A família

Seu pai, que morreu este ano, chegou à Argentina procedente da Itália aos 18 anos. Três anos depois, já tinha sua primeira construtora. Casou-se com Alicia Blanco Villegas, pertencente a uma família tradicional de Tandil, na região dos Pampas, onde Mauricio, o mais velho dos seis filhos, nasceu e morou.

Em 1991, foi vítima de um sequestro que o marcou por um longo tempo. Um grupo de policiais (chamado pela imprensa argentina de "gangue dos delegados") que havia atuado na ditadura (1976-83) o manteve em cativeiro por duas semanas. A família pagou US$ 6 milhões pelo resgate. Após esse episódio, passou vários anos fazendo análise, como ele mesmo contou.

Macri tem três filhos adultos do primeiro de seus três casamentos. Hoje é casado com Juliana Awada, uma empresária da moda de 45 anos, que sempre o acompanha em eventos políticos. Juntos, tiveram Antonia, de oito anos. Se perder a presidência, enfrentará o dilema de liderar a oposição, ou se aposentar da vida política. / AFP

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