KENA BETANCUR / AFP
KENA BETANCUR / AFP

Perfil: Nadia Murad, de escrava sexual do Estado Islâmico a Nobel da Paz

Jovem iraquiana de 25 anos, membro da minoria yazidi, foi torturada, estuprada e vendida como escrava sexual pelo grupo terrorista em 2014 antes de conseguir fugir e se transformar em uma das principais porta-vozes de seu povo

O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2018 | 08h31
Atualizado 05 Outubro 2018 | 12h35

BAGDÁ - Com apenas 25 anos, Nadia Murad, que recebeu nesta sexta-feira, 5, o Prêmio Nobel da Paz ao lado do ginecologista congolês Denis Mukwege, já sobreviveu aos piores horrores cometidos pelo Estado Islâmico (EI) contra seu povo, os yazidis do Iraque, e se transformou em um ícone desta comunidade ameaçada.

Esta jovem iraquiana de rosto pálido e voz aveludada poderia ter tido uma vida pacífica em sua cidade natal, Kosho, perto do bastião yazidi de Sinjar, uma área montanhosa entre o Iraque e a Síria. Mas a rápida ascensão do EI em 2014 mudou seu destino. Em agosto daquele ano, ela foi raptada e levada contra sua vontade para Mossul, bastião do grupo terrorista conquistado cerca de um ano antes.

Foi o início de um calvário de vários meses: Nadia foi torturada e disse ter sido vítima de múltiplos estupros coletivos antes de ser vendida várias vezes como escrava sexual.

Até hoje ela diz - assim como sua amiga Lamiya Aji Bashar, com a qual ganhou o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento do Parlamento Europeu em 2016 - sem parar que mais de 3 mil mulheres yazidis continuam desaparecidas e, provavelmente, seguem em cativeiro.

Torturas e estupros

Ao receber a premiação em 2016, Nadia afirmou que os jihadistas do EI tentaram "roubar nossa honra, mas perderam a própria honra". Ela foi nomeada embaixadora da boa vontade da ONU e luta a favor da proteção das vítimas do tráfico de pessoas.

Além de sofrer torturas e estupros, Nadia teve que renunciar à sua fé yazidi, uma religião ancestral desprezada pelo EI, mas praticada por meio milhão de pessoas no Curdistão iraquiano.

"A primeira coisa que fizeram foi forçar a nos convertermos ao islã. Depois, fizeram o que quiseram (conosco)", relatou Nadia em 2016.

Assim como aconteceu com outras milhares de mulheres yazidis, ela foi obrigada a se casar com um combatente do grupo que constantemente a agredia, contou a jovem em um comovente discurso ao Conselho de Segurança da ONU, em Nova York.

Incapaz de suportar tantos abusos, decidiu escapar. Com a ajuda de uma família muçulmana de Mossul, Nadia obteve documentos de identidade que permitiram a ela chegar até o Curdistão iraquiano.

Depois da fuga, a jovem - que disse ter perdido seis irmão e sua mãe no conflito - vivem em um campo de refugiados na região, onde teve contato com uma organização de ajuda ao yazidis. Graças a este grupo ela se reuniu com uma de suas irmãs na Alemanha.

Unidos pelo combate

No país europeu, onde mora atualmente, ela se transformou em uma respeitada porta-voz de seu povo, que antes de 2014 contava com 550 mil membros no Iraque. Hoje, quase 100 mil yazidis deixaram o país e muitos estão deslocados no Curdistão.

Nadia, que lidera o "combate de seu povo", segundo suas palavras, conseguiu que as perseguições cometidas em 2014 fosse reconhecidas como genocídio. O CS da ONU se comprometeu também a ajudar o Iraque a reunir provas dos crimes cometidos pelo EI.

Seu combate também lhe rendeu algumas boas surpresas. Em 20 de agosto a jovem anunciou em sua conta no Twitter que se casará com outro ativista da causa yazidi, Abid Shamdeen.

"O combate a favor de nosso povo nos uniu e seguiremos essa caminho juntos", escreveu na rede social. / AFP

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