AFP PHOTO / DANI POZO
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Perfil: Pedro Sánchez, de expulso da liderança do partido a primeiro-ministro da Espanha

O ex-professor de economia viu sua obstinação ser recompensada ao conseguir o apoio necessário para aprovar uma moção de censura que tirou Mariano Rajoy do governo

O Estado de S.Paulo

01 Junho 2018 | 09h46

MADRI - Derrotado nas últimas duas eleições e depois expulso da liderança de seu partido antes de voltar pela porta da frente, o socialista Pedro Sánchez saiu triunfante de uma última e arriscada aposta que o levou ao poder na Espanha.

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Liderando uma onda de indignação pela condenação judicial do Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy em uma caso de corrupção, o ex-professor de economia, de 46 anos, viu sua obstinação ser recompensada, conseguindo o apoio necessário para aprovar nesta sexta-feira, 1.º, uma moção de censura que tirou o conservador da liderança do governo.

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"Abre-se um novo tempo na política espanhola (...) e estendo a mão a todos os grupos parlamentares", disse Sánchez, pouco antes de o Congresso empossá-lo no lugar do ex-premiê. "Rajoy já faz parte de um tempo passado, o qual este país está prestes a virar a página, e o que convém à Espanha é olhar para o futuro sem medo", afirmou ele na quinta-feira, ao expor seu plano de governo.

"A sorte lhe deu a chance de poder desempenhar um papel central", afirmou o cientista político Fernando Vallespín, da Universidade Autônoma de Madri, para quem Sánchez fez "uma aposta mais do que arriscada" e "um pouco desesperada".

Uma jogada decidida também no momento em que o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) se encontrava "muito afastado da linha de frente da discussão política", ocupada pelo PP, pelos liberais do Ciudadanos e pela esquerda radical do Podemos, acrescenta o especialista.

Retorno

Com apenas 84 cadeiras de 350 na Câmara Baixa, Sánchez, que não é deputado, viu-se obrigado a formar uma coalizão pela moção de censura com a esquerda radical do Podemos, os separatistas catalães e os nacionalistas bascos. Essa maioria foi tachada como "coalizão Frankenstein" pelo PP, antecipando um governo muito instável e que pode encurtar a permanência de Sánchez no Palácio da Moncloa.

O líder socialista pretende adotar medidas sociais rapidamente para "impulsionar a popularidade do PSOE", indica Antonio Barroso, analista do gabinete Teneo Intelligence, para chegar fortalecido às eleições antecipadas, nas quais as pesquisas mostravam o Ciudadanos como ganhador. "É um político audacioso e não excessivamente reflexivo, que pensa mais em termos de curto prazo", aponta Vallespín.

Nascido no dia 29 de fevereiro de 1972 em Madri, Sánchez cresceu em uma família de boas condições, de pai empresário e mãe funcionária pública. Ao mesmo tempo que dedicava muitas horas ao basquete, estudou economia, primeiro em sua cidade e, depois, em Bruxelas.

Amante da política desde jovem, segundo seus companheiro de classe, foi vereador em Madri de 2004 a 2009, quando se tornou deputado, e sua carreira decolou. Em 2014, foi o primeiro líder do PSOE a ser eleito pelos militantes, mas seu enfraquecido partido chegou atrás de Rajoy nas eleições de dezembro de 2015. Tentou formar governo com os partidos emergentes Podemos e Ciudadanos, mas a iniciativa naufragou.

Nas eleições de junho de 2016, o PSOE registrou seu pior resultado desde o restabelecimento da democracia espanhola em 1977. Sánchez foi defenestrado por uma rebelião interna de seu partido, que o culpava pelos maus resultados nas urnas. Voltou em grande estilo em maio de 2017, quando os militantes lhe devolveram a liderança da legenda.

Embora tenha feito uma frente comum com Rajoy nos últimos meses contra a tentativa separatista na Catalunha, Sánchez será lembrado pelo PP como aquele que conseguiu derrubar um chefe de governo que sobreviveu a inúmeras crises prévias. Ele "entrará para a história da Espanha como o Judas da política", disse recentemente Fernando Martínez-Maillo, número três da sigla conservadora.

Rajoy, agora chefe da oposição, criticou Sánchez na quinta-feira, na Câmara dos Deputados, por realizar um "exercício de oportunismo a serviço de uma ambição pessoal". Denunciando um "líder devorado pela ambição", o jornal El Mundo publicou na quarta-feira uma charge, na qual ele aparece praticando seu discurso diante de um espelho. / AFP

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