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Perfil: Sunita convertido que garante ter se afastado do Islã

Welington Moreira de Carvalho, acusado de promover grupos terroristas, afirma que os muçulmanos o condenavam por tocar em bandas e diziam que isso era pecado

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2018 | 05h00

As cartas escritas na cadeia por Welington Moreira de Carvalho, o único réu conhecido que permanece em prisão preventiva pela acusação de promover grupos terroristas no Brasil, descrevem um afastamento da religião ao longo dos anos. Em sua defesa, ele diz que não se considerava mais muçulmano desde 2014. Da sua conversão ao islamismo sunita em 2002, conta que passou pelo sufismo - uma corrente esotérica do Islã - e pela seita do Santo Daime até resolver abandonar a religião como um todo e se guiar por princípios filosóficos.

Músico, Welington se mudou para a cidade de Ubá, no sudeste de Minas Gerais, para trabalhar como baixista em bandas da região após se sentir isolado pela comunidade sunita no Rio de Janeiro. “É bem verdade que entre 2002 e 2005 eu estava na dúvida entre ser radical ou ser músico, mas graças a Deus, preferi a música”, ele escreveu.

Welington diz que foi alvo de críticas dos muçulmanos após tocar em musicais com temas cristãos. Chegou a desfilar na comissão de frente da escola de samba Império Serrano com uma fantasia de São Jorge, em 2007. Ouvia que música era pecado e deveria abandonar a profissão, mas dava pouca importância aos conselhos.

“Farto de tantas críticas, resolvi me afastar do Islã sunita em 2009”, afirma. No interior de Minas, ele dividia seu tempo entre aulas em uma escola de música e “bicos” como segurança e instalador de alarmes e câmeras.

Cerca de um ano depois, ele se matriculou em um curso de Licenciatura em Sociologia com aulas à distância. Em seus e-mails estão gravados alguns dos trabalhos acadêmicos e comunicados da entidade. Nas cartas, o réu conta que foi preso a um mês da sua formatura. “A sociologia me deixou meio cético em relação à religião”, conta.

Conversas virtuais, encontradas pela PF em seu celular e incluídas nos autos, mostram planos de recrutamento com a finalidade de treinamento paramilitar na região Norte e de um ataque em território nacional. A polícia também achou vídeos em que Welington diz: “Somos do Jihad, e vamos baixar na direção do combate em nome de Alá”.

“Vossa Excelência, isso não passava de ‘bravata’, até porque não existem condições financeiras nem know-how para tal empreendimento”, respondeu ao juiz na videoconferência, quando questionado sobre as acusações. 

Na oitiva, ele também disse ao magistrado que a prisão acelerou um processo de separação da sua mulher.

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