Perfis dos pré-candidatos republicanos à presidância dos EUA

O HOMEM

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h04

PLATITUDE

A habilidade de Mitt Romney para produzir platitudes talvez seja sua característica mais impressionante - e, no dia 12, não foi diferente. "Não negociamos com terroristas." "Este século precisa ser o século americano, em que a América terá os valores mais fortes, a economia mais forte e as forças militares mais fortes." "Temos agora um presidente que acha que a América é apenas mais uma nação. A América é uma nação excepcional." E por aí vai. Mas Romney também preencheu cheques que um presidente Romney, provavelmente, não poderá honrar. Ele disse que se Barack Obama for reeleito "o Irã terá uma arma nuclear". Mas, se Romney vencer, "eles não terão uma arma nuclear". Na impossibilidade de uma intervenção militar em larga escala no Irã, não fica claro como Romney poderá cumprir semelhante promessa. Isso, porém, é um problema para um outro dia. Como Romney observou em um dos últimos debates, ele está concorrendo à presidência "pelo amor de Deus". E, para isso, concluiu claramente que platitudes e temas capazes de aquecer os corações de eleitores conservadores são mais úteis do que políticas plenamente argumentadas que possam lhe trazer problemas. A abordagem de Romney sobre a disputa republicana parece ser a seguinte: "não cometa nenhum erro e deixe que os outros rapazes se atrapalhem". Dadas as implosões dos outros pré-candidatos, essa parece ser uma estratégia eficaz.

O REALISTA

Nos debates do Partido Republicano, Jon Huntsman parece um sujeito convidado para a festa errada. Enquanto os candidatos, em geral, fizeram de tudo para soarem o mais "falcão" possível, Huntsman é a voz de moderação e nuance. Ele foi a única pessoa, além de Ron Paul, a insistir que os EUA deveriam sair do Afeganistão. Ele até invocou seu George McGovern interior quando disse: "Não quero ser um construtor de nação no Afeganistão quando esta nação (os EUA) precisa desesperadamente ser construída". Ele fez uma argumentação apaixonada contra a tortura e pelo entendimento com a China, onde serviu como embaixador de Obama. Em suma, soou como um verdadeiro republicano realista com uma compreensão dos limites do poder americano e da capacidade dos EUA. Nota: ele tem aproximadamente 1% nas pesquisas entre os republicanos.

O CANHÃO

SEM CONTROLE

Difícil imaginar qual foi a coisa mais doida que Michele Bachmann disse no debate. Será quando argumentou ridiculamente que se o presidente tivesse enviado um reforço de 40 mil, em vez de 30 mil, ao Afeganistão, isso teria assegurado o sucesso americano na guerra? Será quando elogiou o governo comunista chinês por não ter um Estado de bem-estar moderno e, em particular, um "carnê de alimentação" ou um programa federal de ajuda a famílias com dependentes, coisa que os EUA não têm há 15 anos? Não, o momento mais doido ocorreu quando ela disse que Obama decidiu "perder" a guerra ao terror (um comentário que seguramente surpreenderá um certo morador do fundo do Mar Arábico).

O VALENTÃO

O ex-presidente da Câmara dos Representantes Newt Gingrich tem um motivo incomum para se destacar entre os diversos pretendentes do Partido Republicano: em uma legenda que cultiva um ar de anti-intelectualismo e anti-empirismo, ele é um verdadeiro Ph.D. No debate, porém, Gingrich mostrou um lado academicamente avançado que pode ser um tantinho incômodo - uma atitude "doutor sabe tudo". Embora tenha feito menos críticas do que o usual aos moderadores e a suas perguntas "ridículas", ele chamou o governo Obama de "burro" sobre o Irã e deixou claro que se países quiserem ajuda externa dos EUA, terão de "explicar por que eu deveria lhes dar um tostão". Ele se alinhou ao ex-presidente egípcio Hosni Mubarak contra os manifestantes pró-democracia no Egito e chegou a dizer que os EUA não têm "um serviço de inteligência confiável". O que se pode tirar dessa série de declarações? Talvez que intimidação, em vez de diplomacia, poderia ser o foco de uma Casa Branca com Gingrich.

O POPULISTA

Após épica gafe do debate de 9 de novembro, a expectativa sobre o desempenho de Rick Perry, no dia 12, era muito baixa. Em vez de se atolar em minúcias políticas, Perry jogou de populista em política externa. Sua fala mais aplaudida veio quando ele prometeu reduzir a zero o orçamento de ajuda externa para todos os países. Segundo Perry, "já é hora de nós, como país, dizermos não à ajuda externa a países que não apoiam os Estados Unidos da América". O que esteve faltando na análise de Perry é que, com certeza, o dinheiro dos EUA, às vezes, vai para alguns países não porque eles apoiam tudo o que nós fazemos, mas porque a ajuda externa dá aos EUA uma oportunidade de defender seus interesses, promover a boa vontade e, potencialmente, criar novos aliados. No entanto, Perry, assim pareceu, estava mais interessado em jogar para a torcida. O governador do Texas adotou um viés similar quando disse que "o governo comunista chinês" terminará no monte de cinzas da história por sua falta de "virtudes". Ele também defendeu a tortura de maneira bizarra - argumentando que não torturar no esforço para salvar vidas americanas seria "ridículo". Com certeza, esse não foi um desempenho de debate estelar - e Perry foi cobrado posteriormente por sugerir que a ajuda a Israel poderia ser realmente reduzida -, mas ao menos ele não gastou 53 segundos tentando se lembrar de qual agência governamental queria se livrar.

O PRINCIPISTA

Ouvir Ron Paul falar de política externa é um pouco como ir ao McDonald's - ao menos sabemos o que vamos comer. Em cada debate, Paul orgulhosa e despudoradamente bate o tambor do neo-isolacionismo americano e dá asas a suas cores libertárias. No debate, ele adotou uma tática parecida, criticando a guerra ao terror e prometendo distância da Síria porque ela não é um problema americano. No entanto, foi particularmente principista quando disse que a tortura não só é errada como é uma prática "não americana" - um tiro claro em seus rivais que endossaram a prática. E mais, defendeu o argumento muito forte de que cada pessoa naquele palco, no dia 12, acha que o governo não deveria administrar um sistema de saúde, mas, de alguma forma, gostaria de receber o poder de decidir a morte de qualquer cidadão americano que o presidente classifique como inimigo. Seja qual for a ideia sobre política interna de Paul, o fato de ele ser o único candidato de ambos os partidos disposto a adotar uma posição de princípio sobre o estado de direito é admirável - e quando se pensa um pouco nisso, é um pouco deprimente.

O PRAGMÁTICO

Rick Santorum pode ser o conservador social mais inflexível entre todos os principais pretendentes republicanos, mas ele tem um viés pragmático também, que ficou plenamente visível no debate. Ele observou que uma vitória no Afeganistão não significaria necessariamente a eliminação do Taleban, mas asseguraria que o grupo não seria mais uma ameaça à segurança nacional. Essa é uma espécie de questão óbvia, mas representa um nível de nuance raramente ouvido de aspirantes presidenciais do Partido Republicano. Sobre o Paquistão, Santorum chegou a ser mais realista do que Huntsman, argumentando que, em razão de seu programa nuclear, o Paquistão "precisa ser um amigo dos EUA" e, assim como os americanos se entenderam com a Arábia Saudita após os ataques do 11 de Setembro, Washington precisa seguir mantendo boas relações com o governo recalcitrante e frustrante de Islamabad. Evidentemente, há limites para o pragmatismo. Santorum também sugeriu que os EUA deveriam trabalhar com Israel para impedir a nuclearização do Irã e disse que uma maneira de defender a liberdade na América é não processar terroristas em tribunais civis. Seja como for, com essa turma, temos de encarar a coerência política do jeito que der.

O 'SABE NADA'

Alguém que tenha prestado bastante atenção à campanha de Herman Cain (foto abaixo) sabe que ele não é exatamente um especialista em política externa. Com tudo isso, seu desempenho no debate foi notável por sua completa falta de substância. Ele disse que uma maneira de evitar que o Irã obtenha uma bomba nuclear é os EUA se tornarem "independentes em energia", um objetivo que levaria décadas e teria pouca influência sobre Teerã porque os EUA não compram petróleo iraniano. Cain disse também que apoia "técnicas avançadas de interrogatório" que são, de fato, tortura. Ele afirmou que não sabia claramente "em que pé estamos no Afeganistão", mas também que a estratégia atual de Obama, de reduzir a presença americana no país, era errada. E ele não respondeu se o Paquistão é amigo ou inimigo dos EUA, oferecendo, em vez disso, uma salada confusa de palavras que eu desafio qualquer leitor a decifrar. Esse é o pior tipo de palavreado ininteligível em política externa. No entanto, como passaremos por toda essa experiência de novo em breve, ao menos Cain terá algum tempo para destrinchá-lo. / M. C.

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