Anna Moneymaker/NYT
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Perguntas e Respostas: Ambições climáticas de Biden podem transformar a pegada global dos EUA

Esforços sérios para combater o aquecimento global podem significar grandes mudanças no comércio, nas relações internacionais e na estratégia de defesa do país

Somini Sengupta, The New York Times

28 de janeiro de 2021 | 07h00

John Kerry, novo enviado dos Estados Unidos para as negociações ligadas à mudança climática, passou os dias mais recentes repetindo aos líderes mundiais que os EUA estão prontos para ajudar o mundo a “ser mais ambicioso” ao enfrentar o aquecimento global. Mas, se levada a cabo, essa política pode significar grandes mudanças para o papel dos EUA no mundo.

Especialistas em política externa dizem que os esforços do governo Biden devem ir muito além da retomada da adesão ao Acordo de Paris, o pacto global firmado entre quase 200 governos para frear a mudança climática. O enfrentamento da mudança climática vai exigir uma reavaliação de tudo, desde as prioridades americanas no Ártico até o auxílio a países frágeis que terão de enfrentar as consequências dos riscos climáticos.

“É algo que muda a postura defensiva e muda o posicionamento da política externa", disse John D. Podesta, ex-funcionário do governo Obama. “São ideias que começam a afetar muitas decisões de política externa, diplomacia e política de desenvolvimento.”

O primeiro reconhecimento dessa mudança veio na quarta-feira, com a Casa Branca orientando as agências de espionagem a criar uma estimativa nacional de inteligência para a segurança climática, e pedindo ao secretário de defesa que realize uma análise de risco climático das instalações do Pentágono.

“O enfrentamento da mudança climática pode e deve ser um pilar central da política externa do governo Biden", disse Meghan O’Sullivan, que atuou como vice-conselheira de segurança nacional no governo de George W. Bush e agora está à frente do Geopolitics of Energy Project, da Faculdade Kennedy, em Harvard. “Isso significa incorporar a questão climática e ambiental às nossas políticas comerciais, nossos programas de auxílio no exterior, nossas discussões bilaterais e até à nossa prontidão militar.”

Kerry, um dos principais membros do conselho de segurança do presidente Joe Biden, é o encarregado de supervisionar essa mudança. Há quatro aspectos importantes a serem observados nas próximas semanas e meses.

Serão os EUA capazes de lidar com seu próprio problema climático?

Em seu primeiro dia de presidência, Biden deu início ao processo de retomada do Acordo de Paris. Agora vem a parte difícil: os EUA, responsáveis pela maior parcela de gases-estufa que aqueceram o planeta desde a era industrial, precisa definir metas específicas para reduzir suas emissões até 2030 - e colocar em prática políticas domésticas para alcançá-las.

O Greenpeace insistiu pela redução das emissões em 70% em relação aos níveis de 2010, enquanto o World Resources Institute e outras organizações americanas falam em 50%, aproximadamente.

Isso coloca Kerry em uma posição difícil. Metas mais ambiciosas podem lhe dar mais poder de negociação com outros países antes da próxima rodada de conversas climáticas, marcada para novembro, em Glasgow. Mas definir metas de emissões domésticas será mais difícil politicamente, especialmente diante de um senado dividido.

Em discurso aos prefeitos americanos no sábado, Kerry indicou que o novo governo buscaria um equilíbrio entre o ambicioso e o realista. “Temos que ir a Glasgow com uma posição de realismo, e temos que chegar lá com uma posição forte", disse ele.

Como os EUA vão lidar com a China?

O clima pode ser uma das poucas áreas de cooperação em um relacionamento cada vez mais tenso entre Washington e Pequim. Os dois países são os maiores emissores de gases-estufa e as duas maiores economias do mundo: sem medidas ambiciosas de ambas as partes, é impossível desacelerar o aquecimento global.

Podesta disse que o governo Biden buscaria a criação de “um canal protegido para que o debate de outros assuntos não encerre o debate em torno da mudança climática".

Além disso, sob certos aspectos a China está na frente. O presidente do país, Xi Jinping, disse em setembro passado que Pequim tinha planos de alcançar a neutralidade em carbono até 2060, o que significa que a ideia é capturar as próprias emissões de carbono ou compensá-las comprando créditos para projetos ecológicos envolvendo o plantio de árvores, por exemplo.

Kerry descreveu a meta chinesa para 2060 como “insuficiente".

Não por acaso, as primeiras mensagens de Kerry como enviado para questões climáticas foram dirigidas aos líderes europeus. Sua melhor chance de pressionar Pequim está em fazê-lo em parceria com a outra grande economia mundial: a União Europeia.

Qual é o poder de influência dos EUA?

Kerry disse repetidas vezes que pretende “aumentar as ambições” de todos os países. Os EUA têm à disposição alguns 'incentivos e ameaças' (carrot or stick no jargão diplomático em inglês) diplomáticos.

Kerry poderia usar um acordo comercial bilateral entre EUA e México, por exemplo, para convencer o México a se abrir para investimentos americanos em projetos de energia limpa. Ele poderia incentivar investimentos privados americanos para incentivar a Índia a abandonar o carvão e acelerar a adoção de fontes renováveis de energia.

E ele poderia usar o auxílio americano ao desenvolvimento para ajudar os países a adotarem uma economia mais ecológica - não exatamente algo que Washington tenha a reputação de fazer, como apontou Kelly Sims Gallagher, ex-funcionária do governo Obama.

“Se os EUA fossem vistos como um país que ajuda países mais vulneráveis a se tornarem mais resilientes e facilita o desenvolvimento de uma economia de baixa emissão, fomentando de fato o desenvolvimento com baixas emissões, isso melhoraria muito a imagem dos americanos", disse Kelly, atualmente professora da Faculdade Fletcher, Universidade Tufts. “Seria uma grande reviravolta.”

Os defensores de medidas contra a mudança climática pedem ao governo Biden que garanta que o auxílio ao desenvolvimento seja canalizado para ajudar países vulneráveis na adaptação à mudança climática, trabalhando com aliados na Europa para incentivar nos países em desenvolvimento a construção de projetos de energia limpa em vez de usinas de carvão, muito poluentes.

Poucos detalhes emergiram da Casa Branca a respeito de como usar o dinheiro americano para fazer avançar no exterior metas climáticas. Kerry disse apenas que os EUA, depois de renegarem uma contribuição de US$ 2 bilhões ao Fundo Verde do Clima, ligado às Nações Unidas, “respeitariam” o compromisso financeiro de ajudar países vulneráveis a lidar com os riscos do clima.

Como serão afetadas as alianças dos EUA com países produtores de petróleo?

Em uma Casa Branca que pensa no clima, o grande elefante na sala é o que fazer com as relações entre EUA e Arábia Saudita.

A dinâmica geopolítica da energia já vinha mudando. Os EUA se tornaram gradualmente mais independentes em relação ao petróleo do Oriente Médio, graças à fragmentação doméstica do xisto. Uma Casa Branca voltada para o clima deve acelerar a mudança.

“Temos uma oportunidade de repensar e redefinir nosso relacionamento com o Oriente Médio graças a isso", disse Kelly. “A mudança climática é um fator adicional.”

Assim que Biden foi eleito, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita revelou planos para uma cidade sem carros. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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