Bloomberg photo by Carlos Becerra
Bloomberg photo by Carlos Becerra

Perguntas e respostas: Quais as consequências das sanções ao petróleo venezuelano?

País deve perder recursos e procurar outros clientes, com margem de lucro menor; dívida com China e Rússia prejudica fluxo de caixa da PDVSA

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2019 | 14h32

O governo dos Estados Unidos anunciou na segunda-feira, 28, sanções ao petróleo venezuelano, que, na prática, vetam o acesso do governo do presidente Nicolás Maduro aos recursos do petróleo exportado para os Estados Unidos. Veja abaixo quais as consequências disso para a Venezuela

Quanto a Venezuela exporta para os EUA?

A Venezuela exporta diariamente 500 mil barris de petróleo por dia para os Estados Unidos. Os maiores compradores são a Valero Energy, a Citgo, que é uma subsidiária da PDVSA, e a Chevron, segundo o departamento de Energia americano.

 

Como os EUA substituirão isso?

O secretário do Tesouro Steve Mnuchin, disse ao anunciar as sanções que o país tem suficiente reserva de petróleo para compensar a compra de petróleo venezuelano, que correspondem a 3% do que é importado pelos Estados Unidos a nível global. Além disso, Mnuchin disse que "aliados americanos no Oriente Médio ficariam mais do que contentes em suprir esse vácuo", numa aparente referência às monarquias do Golfo, especialmente a Arábia Saudita.

Quanto de caixa o petróleo venezuelano vendido aos EUA gera para a PDVSA?

Segundo estimativa do economista Alejandro Grisanti, de cada 10 dólares relacionados ao petróleo que entram no caixa da Venezuela, 8 vêm de compras dos Estados Unidos. Empresas americanas costumam pagar à vista pela compra e a proximidade entre os dois países faz com que os custos de frete e seguros sejam mais baixos, aumentando a margem de lucro.

 

Quem são os outros principais clientes da Venezuela?

Por ordem, os maiores compradores de petróleo venezuelano, de acordo com a consultoria Argus,  são Estados Unidos, com 42% das exportações, a Índia, com 26%, a China, com 13%, e Cuba, com 7%. Outros compradores importantes são Cingapura e Holanda. Apesar dessa diversificação, em virtude de acordos de empréstimo com a China, quase a totalidade dos barris exportados para Pequim não revertem dividendos para Caracas. Uma parte do que é exportado para a Índia também não, porque a principal empresa compradora do país, a Nayara Energy, tem capital russo, e o petróleo vendido para essa empresa serve como compensação para empréstimos feitos pela Rosneft, controladora da companhia 

 

As sanções americanas afetam a exportação venezuelana para outros países?

Sim, indiretamente. Apesar de o chavismo ter abandonado há alguns anos bancos americanos e europeus para receber a receita do petróleo de bancos chineses, essas instituições financeiras ainda são usadas pelas empresas compradoras para fazer transferências entre contas, diz a Reuters. Como as sanções impedem empresas americanas de fazer negócios com a Venezuela, petróleo exportado para outros países pode ser afetado se essas empresas usarem bancos americanos. 

Outro ponto que afeta a exportação venezuelana para outros países é que operações de seguro feitas para grandes carregamentos de petróleo, em geral, também são feitas por empresas dos Estados Unidos. 

 

A Venezuela tem condição de simplesmente conseguir outro comprador e ignorar os EUA?

Tem, mas o lucro deve ser menor. A Rússia se dispôs a ajudar a Venezuela e outros clientes, como Índia, Malásia e Cingapura podem aumentar suas compras. Mas em virtude dos custos de mandar o petróleo para a Ásia, a margem de lucro da PDVSA não deve ser a mesma comparada à obtida nas vendas para os Estados Unidos e o pagamento também não deve ter as mesmas condições, de acordo com o economista especialista em petróleo Francisco Monaldi.

 

Qual o papel da Citgo?

A Citgo é a segunda maior compradora de petróleo venezuelano nos Estados Unidos e conta com três refinarias e uma rede de postos por todo o país. Por ser um ativo bem visto no mercado financeiro, tem facilidade para conseguir crédito no mercado, algo que já não acontece com a PDVSA. Além disso, a Citgo compra diluentes de combustível para processar o pesado petróleo venezuelano e reenviá-lo à Venezuela como combustível. As sanções de ontem vetaram a venda desses diluentes, o que pode levar a uma escassez de gasolina no país.

Além disso, por ser um dos principais ativos da Venezuela, Maduro assinou um acordo de empréstimo com a Rosneft para saldar bônus da dívida externa venezuelana. O acordo dá aos russos 49% do capital da empresa caso os compromissos não sejam honrados. 

 

Rússia e China estão mais perto de sofrer um calote?

Sim. Com a queda na produção de petróleo na Venezuela, provocada pela falta de investimento e sucateamento da infraestrutura no país, Caracas já não consegue cumprir as metas diárias de exportação de petróleo para saldar as dívidas com esses dois países, diz o diário argentino Infobae. No caso russo, dos 600 mil barris diários prometidos, a Venezuela embarca 300 mil. No chinês, dos 300 mil diários, são exportados 150 mil.

 

Quanto cada um já emprestou ao chavismo?

A dívida chinesa é maior e mais antiga, e data do tempo do presidente Hugo Chávez. Segundo cálculos da consultoria Ecoanalítica,  O total dos empréstimos desde 2006 chega a US$ 54 bilhões, mas ainda restam US$ 21 bilhões a serem quitados. A Rússia começou a emprestar dinheiro para a Venezuela já no governo Maduro e a dívida totaliza US$ 17 bilhões, com US$ 10 bilhões em aberto. Deste volume, US$ 3 bilhões precisam ser pagos ainda este ano. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.