The Presidency of the Republic of Iraq Office/Handout via REUTERS
The Presidency of the Republic of Iraq Office/Handout via REUTERS

Perguntas e respostas: Rejeição de Trump ao acordo nuclear do Irã pode levar à guerra?

Na terça-feira o secretário de Estado Mike Pompeo se encontraria com a chanceler alemã Angela Merkel para discutir, entre outros assuntos, a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear firmado com o Irã

Rick Noah / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2019 | 05h00

Nesta semana, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, se encontraria com a chanceler alemã, Angela Merkel, para discutir, entre outros assuntos, a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear firmado com o Irã. Mas o encontro não ocorreu. Em vez disto, Pompeo seguiu diretamente a Bagdá para tratar das consequências dessa decisão, uma vez que aumentam os temores de que o Irã estaria preparando ataques contra tropas americanas no Oriente Médio. As tensões cresceram desde a decisão de Donald Trump de se retirar do acordo, em maio do ano passado. Mas apesar das sanções estabelecidas pelos EUA, as outras partes envolvidas no acordo tentaram mantê-lo em vigor.

Agora parece que essa estratégia fracassou, uma vez que o presidente iraniano, Hassan Rohani, afirmou na quarta-feira que seu país vem adotando medidas e não mais atender a determinadas cláusulas do acordo, e retomar o enriquecimento de urânio – medida  que poderá obrigar as partes remanescentes do acordo a adotarem sanções dentro de 65 dias, depois do prazo de 60 dias dado pelo Irã para um novo acordo ser negociado.

 

Por que há um acordo?

 O Irã nunca admitiu a existência de um programa de armas nucleares, mas  Europa e Estados Unidos não acreditam que Teerã enriquece urânio apenas para fins pacíficos. À medida que os esforços iranianos nesse sentido se intensificam, também aumenta a pressão sobre o país para cessar essas atividades.

Foram implementadas sanções comerciais, bancárias e financeiras contra o país e ao que parece tiveram um impacto devastador sobre a economia iraniana. Em 2012, a inflação disparou, em parte devido a políticas adotadas internamente, mas também em razão dessas sanções, o que levou milhares de pessoas às ruas para protestar.

Depois de anos de negociações com Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Rússia e China, o Irã finalmente concordou com restrições mais severas no tocante ao enriquecimento de urânio e também permitiu o acesso de inspetores das Nações Unidas às suas instalações nucleares em 2015. Em troca, todas as sanções relacionadas ao programa nuclear do país foram suspensas.

 

O que o acordo deveria garantir especificamente?

 

Antes de o acordo ser assinado, pesquisadores alertaram que o Irã estava apenas a alguns meses de fabricar uma arma nuclear, se era esse o seu objetivo. Tal capacidade – ou o chamado “breakout time”, ou seja, o tempo  necessário para fabricar uma bomba atômica, foi estendida pelo acordo nuclear. Devido às concessões feitas, a avaliação hoje é de que Teerã necessitará de pelo menos um ano, o que dará tempo suficiente para Estados Unidos e seus aliados restabelecerem as sanções ou mesmo avaliarem a possibilidade de ataques militares.

 

Se o Irã retomar as atividades de enriquecimento de urânio, uma bomba atômica deve demorar muito mais tempo para ser produzida do que antes de o acordo ter sido assinado.

Com base no acordo de 2015, o Irã reduziu o número de centrífugas de 19 mil para 6 mil.   Seu estoque de urânio já enriquecido foi reduzido de 10 mil quilos para 300 quilos. Uma usina de enriquecimento considerada uma ameaça particular pelos inimigos do Irã foi transformada em centro de pesquisa. 

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) das Nações Unidas ficou responsável pela verificação do cumprimento das exigências pelo Irã, por um período inicial de até 25 anos.

 

Quais foram os argumentos a favor?

Mesmo os que defendiam o acordo reconheceram que ele não garantiria 100% que o Irã deixaria suas atividades de enriquecimento de urânio ou não as retomaria depois. Mas o presidente Barack Obama considerou que era uma oportunidade histórica de normalizar as relações com o país. “Este acordo nos dá oportunidade de seguir numa nova direção. Nós devemos aproveitá-la”, afirmou.

O principal argumento em favor do acordo era de que os Estados Unidos teriam mais tempo para impedir que o programa de armas nucleares tivesse continuação.  “Quero sublinhar que a alternativa ao acordo que alcançamos não é o que  alguns anúncios na TV sugeriram falsamente. Não é o “melhor acordo”, uma espécie de pacto do mundo dos unicórnios que inclua a capitulação completa do Irã. Isto é fantasia, pura e simplesmente e nossa comunidade de inteligência lhes dirá isto”, afirmou Kerry.

Embora 56% dos americanos ouvidos em uma pesquisa do Washington Post-ABC realizada em 2015 tenham apoiado o acordo, uma maioria continuou cética quanto se ele impediria o Irã de produzir uma bomba nuclear. Os republicanos especialmente se mostraram preocupados. 

 

Quais eram os temores?  

Algumas pessoas acharam que as medidas acordadas não eram amplas o suficiente para impedir atividades ocultas de enriquecimento de urânio. Outras se mostraram mais preocupadas com o próprio acordo, entendendo que ele beneficiava apenas um lado. Na época o senador Marco Rubio declarou que “o Irã sabe que, com o fim das sanções internacionais, será impossível elas serem retomadas”.

Os republicanos compartilhavam suas reservas com o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, que estava mais determinado a refrear as ambições regionais do Irã, não se concentrando em seu programa nuclear. O acordo, afirmaram os críticos, não resultaria em uma mudança de regime e na verdade daria ao Irã mais liberdade para moldar sua política regional de outras maneiras – por exemplo, apoiando o Hezbollah, o Hamas, os rebeldes houthis xiitas no Iêmen.

 

O Irã violou o acordo?

 

A avaliação das agências de inteligência europeias é clara: não, não violou.

 

 

Por que Trump o abandonou?

Há muito tempo ele afirmava que o acordo era ruim e valia a pena rescindi-lo. Seu raciocínio teve a ver mais com as ambições regionais do Irã e não com o debate sobre as armas nucleares. O envolvimento do Irã no Iêmen e no Iraque é visto pelo governo Trump como provocação.

Mas os republicanos devem estar cientes de que isto não constitui uma violação do acordo, e como eles observaram mesmo antes de o pacto ser firmado,  tais questões não foram abrangidas por ele.

 

Como reagiram os aliados dos Estados Unidos a respeito?

 

Ficaram furiosos. França, Alemanha, Grã-Bretanha, mais a China e a Rússia, decidiram manter o acordo e criticaram duramente Trump por “faltar com nossas obrigações internacionais”, que consideraram um erro.

 

Já se passou quase um ano. A retirada do acordo por Trump não teve importância?

 A reintrodução de sanções contra o Irã levou algum tempo, mas seu impacto, especialmente sobre as exportações de petróleo do país, somente agora começa a ser sentido.

O que é uma má notícia para Alemanha, França e Grã-Bretanha, que esperavam contornar as sanções impostas pelos Estados criando uma entidade que serviria de escudo para as empresas europeias e permitiria que elas continuassem a negociar com o Irã. Em fevereiro os três países anunciaram o registro da companhia sediada em Paris para administrar o comércio entre o Irã e a Europa. Essa companhia basicamente atuaria como uma câmara de compensação de pontos de crédito para evitar o uso de dinheiro vivo, o que poderia ser usado para punir as companhias europeias.

Mas quase todas as grandes empresas que passaram a negociar com o Irã após a suspensão das sanções já haviam se retirado quando o anúncio de Trump foi feito e não têm planos para retomar os negócios.

Trump, ao que parece no momento, tem mostrado que qualquer acordo negociado com os Estados Unidos só pode ser mantido enquanto Washington entender que isto vale a pena. / Tradução de Terezinha Martino

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