Perícia colombiana diz que vídeo de hacker com opositor é autêntico

Imagens mostram Óscar Zuluaga com homem que teria lhe passado dados secretos de negociação entre governo e guerrilha

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2014 | 02h03

BOGOTÁ - O vídeo que mostra o candidato presidencial colombiano Óscar Iván Zuluaga com um hacker que oferecia informações secretas sobre o diálogo de paz com a guerrilha é verdadeiro, segundo a Procuradoria colombiana. O resultado da perícia foi divulgado ontem à noite, horas antes do último debate eleitoral entre os candidatos.

As imagens mostram Zuluaga - o candidato apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe e tido como provável adversário do candidato-presidente Juan Manuel Santos - e o hacker Andrés Sepúlveda num diálogo informal, no qual a passagem de dados confidenciais sobre comunicados oficiais que seriam divulgados um dia depois parecia algo corriqueiro. De acordo com os peritos, o video gravado pelo espanhol Rafael Revert "tem continuidade de áudio e vídeo e não há indícios de que ele tenha sido submetido à edição".

Em debate na quinta-feira, o opositor Zuluaga admitiu o encontro e disse ter cometido uma "imprecisão" inicial ao comentar as circunstâncias da reunião. Mas insistiu que havia uma montagem que suprimia trechos da conversa. Na quinta-feira pela manhã, ele levou o que julgava serem provas da adulteração à Procuradoria, que demorou um dia para analisar o material.

As negociações de paz com a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) tomaram o centro das discussões da campanha para as eleições de amanhã. Os colombianos dividem-se entre os que aceitam a concessão de uma anistia para os rebeldes - posição da qual Santos não se afasta - e os que entendem isso como manifestação de impunidade, como defende Zuluaga.

Feridas. As cicatrizes da guerra estão por toda parte em Bogotá. Entre os 5,7 milhões de colombianos expulsos de casa pela luta armada está Orlando Jesús Guarín, de 55 anos, que abandonou o Departamento de Antioquia depois de perder um filho, morto pela guerrilha, e a perna esquerda ao pisar numa mina, quando tentava resgatá-lo.

Guarín é um entre a centena que ocupou a principal praça de Bogotá para exigir indenização aos desalojados pela violência. Os "desplazados" usam a proximidade da eleição de amanhã para pressionar governo e candidatos. Mas também são usados por quem não esteve perto das balas e golpistas que tentam entrar na lista de beneficiários.

Guarín tenta receber 180 milhões de pesos (US$ 94 mil), a quantia determinada para pessoas em sua situação segundo a Lei de Vítimas aprovada em 2011. Ele foi ferido no interior do município de Valdivia, a 590 quilômetros de Bogotá, em 25 de agosto de 2005. Partiu para as montanhas depois de ouvir que as Farc tinham assassinado 15 agricultores na região em que o filho trabalhava.

"Não sabia se meu filho estava entre eles, então fui lá. Aí pisei numa mina 'rompepatas'", resume, referindo-se às bombas enterradas pela guerrilha para proteger o território que considera seu. Guarín garante que o filho não estava envolvido com guerrilheiros ou paramilitares, "só plantava bananas". A indenização, afirma, ajudaria a voltar a ter uma casa e a combater a dor que sente na sola do pé que perdeu, fenômeno frequente em amputados.

Perto da sede presidencial, o Palácio de Nariño, o grupo de Guarín organizou uma fila de sopa que atrai famintos de diferentes áreas de ocupação, em geral da zona sul de Bogotá.

Uma investigação sobre o líder do movimento dos desalojados, Pedro Nel Cardona, concluiu que ele não só tinha casa como também embolsava parte do auxílio enviado por instituições de caridade. O homem de 60 anos é acusado de ser um ocupador profissional e distorcer a finalidade da Lei de Vítimas . Segundo o jornal El Tiempo, Cardona liderou cinco ocupações em cinco anos, sempre organizando grupos em torno do tema das indenizações.

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