Victor Ruiz Caballero/Reuters
Victor Ruiz Caballero/Reuters

Perícia confirma suicídio de Allende durante golpe de 1973

Exames atestam versão oficial de que presidente se matou com tiro no queixo de fuzil que havia sido presente de Fidel

, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

SANTIAGO

O Serviço Médico Legal de Santiago confirmou ontem que o ex-presidente chileno Salvador Allende se suicidou durante o golpe de Estado comandado por Augusto Pinochet, no dia 11 de setembro de 1973. A informação foi divulgada por especialistas e pela própria família do ex-presidente, que recebeu o relatório da perícia.

O estudo, de mais de cem páginas, foi realizado por uma equipe multidisciplinar de peritos chilenos e cinco legistas estrangeiros, com a supervisão do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que validou o relatório final. "A conclusão é a mesma que a família Allende tinha: o presidente, diante das circunstâncias extremas pelas quais passou, tomou a decisão de tirar sua vida antes de ser humilhado ou passar por qualquer outra situação", afirmou Isabel Allende, senadora e filha do ex-presidente.

Allende foi encontrado morto em seu gabinete depois de um bombardeio contra o Palácio La Moneda, sede do governo chileno, durante o golpe. A arma e a bala que causaram sua morte, no entanto, nunca foram encontradas e a viúva do presidente e suas filhas não puderam ver seu corpo, o que deu margem a teorias de assassinato.

Conforme explicou o diretor do Serviço Médico Legal, Patricio Bustos, o relatório "verificou a identidade do presidente por meio de odontologia forense, de exames de DNA" e determinou que a causa da morte foi, de fato, "por ferimento de projétil", que "corresponde a um suicídio".

"Estamos em condições de poder garantir que se trata de uma morte violenta de explicação médico legal suicida. Sobre isso não temos, absolutamente, nenhuma dúvida", disse o legista espanhol Fernando Etxeverría, que participou dos exames.

"A lesão que existe no encéfalo ocorreu em consequência de um disparo com arma de fogo, com um fuzil que estava praticamente apoiado na mandíbula, na parte inferior, no queixo", disse Etxeverría.

O perito britânico David Pryor, da Scotland Yard, afirmou que a arma usada foi um fuzil AK-47, presente do líder cubano Fidel Castro, que foi perdido após o golpe. Segundo ele, "há evidência de duas balas", ambas disparadas em um mesmo movimento, pois a arma estaria em posição automática, o que permite vários disparos por segundo.

De acordo com Isabel, a família recebeu a notícia "com grande tranquilidade". "O relatório confirma algo de que já tínhamos convicção, mas a novidade são os testes de todos os níveis, principalmente de balística, que confirmam a causa da morte", disse.

A investigação que tentou esclarecer as circunstâncias da morte do ex-presidente começou em janeiro, quando a Justiça abriu um processo para investigar o caso. Em abril, um tribunal ordenou a exumação dos restos mortais de Allende após identificar deficiências na autópsia feita em 1973. Os trabalhos começaram em maio. O relatório foi entregue ao juiz Santiago Carroza, que deverá aprová-lo para encerrar um dos episódios mais misteriosos da história do Chile. / AP

PARA LEMBRAR

Eleito presidente em 1970, Salvador Allende foi o primeiro socialista a vencer uma eleição durante a Guerra Fria na América Latina. No governo, adotou um tom nacionalista, estatizando as minas de cobre. A nova política irritou a direita e desestabilizou o país. Com o apoio de Washington, os militares chilenos deram um golpe de Estado em 1973. Durante o cerco ao Palácio La Moneda, Allende morreu, aos 65 anos. A arma e a bala que mataram o presidente nunca foram encontradas. A família sempre aceitou a versão oficial, de suicídio, embora políticos e jornalistas tenham defendido, por muito tempo, que ele fora executado.

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