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Periferia de Kiev tem pouca fé em mudanças

Ucranianos distantes do foco dos confrontos mostram simpatia pela causa, mas ceticismo

Lourival Sant'Anna, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h05

KIEV - Um dos aspectos intrigantes de movimentos como o contrário ao presidente deposto Viktor Yanukovich é como uma pequena fração da população de um país pode, ao sair às ruas, mudar o curso da história. Em seu momento de maior concentração, a Praça da Independência reuniu 100 mil pessoas. A Ucrânia tem 46 milhões de habitantes. O que pensa a chamada "maioria silenciosa"?

Não há pesquisas confiáveis. O repórter do Estado foi ontem a locais distantes da praça, para ouvir moradores de Kiev que não participam do movimento - ressalvando que a realidade em outras regiões do país é diversa. Ninguém mostrou-se contrário ao movimento. Talvez os partidários de Yanukovich estivessem entre os que se recusaram a dar entrevista. Mas tampouco há grande otimismo quanto às consequências práticas dessa vitória popular.

"Apoio o movimento, mas não acredito que trará resultados", disse Oleh, de 30 anos, vendedor ambulante de frangos e queijos em Sviatoshyn, na periferia oeste de Kiev. "Mesmo com a mudança do presidente, não vai melhorar. Os que entrarão no seu lugar não serão melhores que ele", acrescentou Oleh, que anulou seu voto nas eleições de 2010. "Sinto pelos mortos, porque eles morreram por nada."

"Não sabemos nada de política, mas os gângsteres não deveriam chegar ao poder", declarou, ao seu lado, Nina Bilobruk, de 67 anos, que vende banha de porco e queijos na calçada do terminal de ônibus e metrô e Sviatoshyn. "Apoio o movimento em razão da pobreza em que vivemos." Sob a aprovação de outras aposentadas a seu redor, Nina disse que recebe salário mínimo, ou 1.000 hryvnas (equivalentes a R$ 300) por mês. "O dinheiro não dá, e por isso tenho que vir aqui vender todos os dias." Em 2010, ela votou na líder oposicionista Yulia Tymoshenko.

Tamara, uma engenheira eletrônica aposentada de 60 anos, também votou em Yulia. "Apoiei o movimento porque vivemos sob um Estado policial, stalinista, que se aliou a gângsteres", definiu Tamara, enquanto comprava flores na estação de metrô de Sviatoshyn para depositar em locais onde manifestantes foram mortos na Praça da Independência. Ela garantiu que as eleições de 2010, nas quais Yanukovich derrotou Yulia, não foram justas: "As pessoas receberam dinheiro para votar em Yanukovich".

Divisão. O ex-presidente tem apoio nas regiões leste e sul do país, que vivem sob maior influência da Rússia. No oeste e noroeste, onde se situa Kiev, há maior identificação com a Polônia, da qual essa região já fez parte, hoje integrante da União Europeia. Foi justamente o fato de Yanukovich ter cedido às pressões do presidente russo, Vladimir Putin, para não assinar contratos comerciais com a União Europeia, em novembro, que desencadeou os protestos em Kiev.

"Tenho medo de uma guerra entre o leste e sul e o oeste", disse Elina Biliaska, de 47 anos, dona de uma imobiliária em Kiev. "Preocupo-me com a propaganda que a imprensa oficial faz no leste. Aquelas pessoas não entendem a importância de Maidan", continuou Elina. A Praça da Independência é conhecida como "Maidan", que significa praça em turco - resquício da presença otomana na região.

Elina se comoveu ao lembrar dos mortos nos confrontos com a polícia. Apesar de não conseguir alugar apartamento há três meses, desde que o movimento começou, ela o apoiou e contou que seu marido e seu filho passavam o tempo todo na praça.

A paralisia da economia atingiu em cheio o comércio em Kiev. Na manhã de ontem, quando deveria estar cheia de clientes, uma galeria no centro da cidade estava vazia. Oksana, vendedora de uma loja de sapatos, no entanto, também apoia o movimento, desde o começo. "Está claro que Yanukovich é um fantoche de Putin", disse ela. "Mas o país está dividido. O leste apoia a Rússia e o oeste, Maidan." Ela desejava que o presidente saísse, mas não concordou com a violência nas manifestações.

É a mesma posição de muitos ucranianos. "Apoio Maidan, mas não a violência", disse Fiodr, de 29 anos, funcionário do Ministério de Assistência Social. Fiodr deseja a aproximação da Ucrânia da União Europeia e o distanciamento da Rússia.

O fantasma do histórico domínio russo é uma grande motivação a favor das manifestações. "Tenho medo da expansão da Rússia e do cenário georgiano", explicou Irena Nesteroska, funcionária pública aposentada de 63 anos, cujo filho se manifestava na praça. Em 2008, a Rússia apoiou um movimento separatista na Ossétia do Sul, na Geórgia, levando a uma curta guerra entre os dois países. "O fortalecimento de Putin é o mal maior, para mim."

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