AFP PHOTO / GEOFFROY VAN DER HASSELT
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Periferia já se mobiliza contra novo presidente da França 

Áreas pobres no entorno de Paris tiveram maiores taxas de abstenção no 2º turno

Andrei Netto, Seine-Saint-Denis / França , O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 05h00

O nível de abstenção e de votos brancos e nulos das eleições presidenciais na França, que atingiu um recorde histórico em 2017 – 16,18 milhões de eleitores –, mostra que Emmanuel Macron não terá “lua de mel” frente à opinião pública, muito menos apoio incondicional para realizar suas reformas. 

Essa tendência fica ainda mais clara em Seine-Saint-Denis, periferia de Paris famosa por problemas sociais, posição de esquerda e alto grau de desprezo por políticos ligados ao mundo das finanças, como o novo presidente francês.

Nesse departamento, ficam 13 das 50 cidades com maior abstenção no segundo turno das eleições, realizado há uma semana. Semana passada, a reportagem do Estado conversou com eleitores que decidiram boicotar as urnas e não escolher entre Macron e Marine Le Pen. Em Seine-Saint-Denis esse eleitorado é tipicamente de esquerda radical, seguidor de Jean-Luc Mélenchon e seu movimento, França Insubmissa, ou de partidos coligados, como o Comunista (PCF).

“Em Seine Saint-Denis a abstenção é sempre muito forte. Neste ano, foi ainda maior em razão das pessoas que votaram em Mélenchon”, afirma Thibault L’Honneur, ativista que trabalha em movimentos sociais e milita pelos “insubmissos” na cidade de Saint-Ouen. “Temos uma tradição de combate do racismo e do fascismo, e os eleitores sabem se mobilizar contra a Frente Nacional. Já Macron representa o ultraliberalismo. Fiz uma escolha clara pelo voto em branco. Não queria votar na FN e não me reconheceria na política de Macron.”

Morador de Clichy-sous-Bois, cidade que ficou conhecida em todo o mundo pelas rebeliões de jovens contra a polícia em 2005, Ahmed Kourdi também não votou no segundo turno. “Macron é um presidente liberal, com intenções de desmantelar o código do trabalho nos próximos meses”, reclama o trabalhador da área da saúde. “As duas proposições que estavam em jogo não me agradavam. Se não podemos decidir não votar quando as opções não nos agradam, não considero isso uma democracia.”

Resistência. O desprezo pelo programa do presidente eleito também levou Thomas O’Neill, estudante de mestrado em Ciência Política, a optar pela abstenção, mesmo que a oponente dele tenha sido Marine Le Pen. Morador da cidade de Saint-Denis, o eleitor de Mélenchon diz que a abstenção foi sua forma de não dar ao então candidato do movimento En Marche! ainda mais poder político nas reformas que pretende empreender. 

“Eu tinha três escolhas: me abster, votar em branco ou em Macron. Votar em branco, o que é considerado no total de participação, não era o ideal. Então, me abstive”, conta.

Em sintonia, os moradores das diferentes cidades de Seine-Saint-Denis têm a convicção de que Jean-Luc Mélenchon tem condições de formar uma maioria no Parlamento, embora a missão seja difícil. Caso as pesquisas de opinião que apontam uma possível vitória do República em Movimento (REM) – novo nome adotado pelo partido de Macron – se mostrem corretas mais uma vez, a opção será contestar o presidente com uma onda de protestos de rua que impeça as reformas previstas em seu plano de governo. 

“As manifestações levaram muito tempo para se organizar no mandato passado, contra François Hollande”, lamenta Ahmed. “Agora, vê-se que contra Macron vai começar de imediato. As pessoas não querem as leis que ele pretende votar contra o código do trabalho”, diz ele, enfático. “Não haverá ‘lua de mel’.” 

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