Perigo no coração da África

A França aconselhou seus cidadãos no Mali a deixar o país. Antiga colônia francesa que se tornou independente em 1960, o Mali ocupa o sul do mais vasto deserto do mundo, o Saara. Faz fronteira ao norte com a Argélia, e ao sul com o Senegal. É um dos países mais miseráveis do planeta. Como seria diferente? O Mali não tem saída para o mar e toda sua parte norte, habitada pela mítica população dos tuaregues (os homens azuis) é constituída de areia e pedra.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2012 | 03h07

Há alguns dias, um golpe de Estado derrubou o governo em Bamako. Uma junta de capitães do Exército tomou o poder. Em seguida, sob a égide do Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), os tuaregues atacaram essa região ao norte - que consideram o berço da sua importante civilização.

Em poucos dias, os rebeldes libertaram todo o norte, ou seja, a parte saariana do país. O Mali, portanto, ficou dividido em dois. As duas cidades no deserto caíram: Gao e a fabulosa Timbuctu, onde nenhum europeu conseguiu penetrar até 1828.

Simples conflito local? Não. Os tuaregues são um povo selvagem, arisco. Sempre gostaram de se revoltar contra o governo de Bamako. Até há pouco, a paz sempre era rapidamente restabelecida graças aos "bons ofícios" do ex-presidente da Líbia, o coronel Muamar Kadafi, que se vangloriava de ser o regente dos espaços saarianos. Kadafi, aliás, treinava na Líbia "legiões" de soldados tuaregues.

Quando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) atacou a Líbia, a pedido de França e Grã-Bretanha, matando de passagem o coronel Kadafi, os soldados tuaregues do ex-ditador, bem organizados e fortemente armados, retiraram-se para o norte do Mali. E lá decidiram que estava na hora de reconquistar sua independência e recriar a antiga Azawad. Foram esses soldados aguerridos que tomaram Timbuctu esta semana.

Mas eles não foram os únicos a aproveitar o desaparecimento do governo legal do Mali. Uma outra facção de guerreiros tuaregues também entrou em ação. São homens bem diferentes. Os tuaregues de Azawad, que tomaram Timbuctu, dizem-se seculares, ao passo que os outros são islâmicos e formaram o Ansar Din (Exército da Religião) e pretendem instituir no norte do Mali a sharia, a sangrenta justiça islâmica.

Essa região norte do Mali está povoada de guerreiros: de um lado aqueles que não professam nenhuma crença, e de outro os "barbudos" do movimento Allahu Akbar (Deus é Grande). Esses homens formam uma nova geração de tuaregues seduzidos pela ideologia islâmica, em contato com a Al-Qaeda do Magreb Islâmico, responsável por sequestros e, depois de alguns meses, massacres de ocidentais.

A junta que derrubou o governo de Bamako tenta acalmar a comunidade internacional. Esta semana, prometeu que vai restabelecer a ordem constitucional, enviando emissários para conversar com os insurgentes.

Que insurgentes? Os seculares de Azawad ou os fanáticos do Ansar Din? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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