Perigos de uma política externa agressiva

Países querem dos Estados Unidos investimento em segurança emergencial e não a volta de uma Guerra Fria que acirre ainda mais os ânimos

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2014 | 04h46

A controvérsia sobre Bowe Bergdahl tem ofuscado amplamente o que deveria ser uma importante iniciativa do governo Obama. A viagem do presidente à Polônia foi mais um passo naquela que será a mais importante empreitada da política externa americana na próxima década. O mundo hoje está respaldado numa ordem criada pelos Estados Unidos que desde 1989 não foi contestada por uma outra grande potência. Como assegurar que essas condições permaneçam, mesmo quando novas potências surgem, caso da China, e outras mais antigas, como a Rússia, tentam mostrar sua força? Num ensaio enérgico no The New Republic, o analista conservador Robert Kagan afirma que Obama esqueceu uma lição primordial da política externa americana moderna. Em vez de "se retrair", Washington necessita se envolver de modo irrestrito e intrépido nos assuntos mundiais, diz ele.

Poderíamos achar que um país com centenas de milhares de soldados estacionados em todo o mundo se ajustaria à descrição do jornalista e escritor. Mas não basta. O modelo oferecido por Kagan para uma estratégia americana de sucesso é o do governo Roosevelt-Truman, quando a 2.ª Guerra terminou. Mesmo quando novas ameaças ainda eram incipientes, esse governo manteve um enorme poder militar, falou e agiu com firmeza.

Mas ele observa depois, aparentemente desconhecendo as suas implicações, o que se ocorreu nos últimos anos do governo Truman: a União Soviética desafiou os EUA em todo o globo, a China tornou-se comunista e antiamericana e a Coreia do Norte invadiu o Sul. Todas as ações para manter a presença externa do país mal surtiram efeito. O principal argumento de Kagan subverte seu raciocínio.

A empreitada hoje é muito mais complicada do que as anteriores. No passado - na 2.ª Guerra e na Guerra Fria - os Estados Unidos tentavam derrotar totalmente as grandes potências que alinharam-se contra o país. Na Guerra Fria, o objetivo - como George Kennan afirmou desde o início - foi refrear a União Soviética o bastante que o comunismo fracassaria vítima das suas próprias contradições.

A meta hoje é deter a expansão da China e ao mesmo tempo integrá-la na ordem global. Mesmo com a Rússia a intenção não é forçar o colapso do regime, mas conter instintos agressivos de Moscou e esperar que os russos evoluam e se tornem mais cooperativos.

Imagine se os Estados Unidos decidissem combater a China total e frontalmente. A China reagiria de várias maneiras: militar, política e economicamente, o que deixaria alarmados os países da região, mesmo aqueles preocupados com a agressividade de Pequim. Isso porque a China é o maior parceiro comercial desses países e de grande importância para o seu bem-estar econômico. O que eles desejam de Washington é uma política de segurança emergencial, não uma nova Guerra Fria.

Mesmo no caso da Rússia, embora os países europeus tenham compreendido que Moscou deve pagar um preço pelo seu comportamento na Ucrânia, todos desejam ter a Rússia como parceiro econômico. O objetivo deles é impor um preço pelo mau comportamento, mas manter os vínculos políticos e econômicos, esperando que eles cresçam no futuro.

O desafio para Washington, portanto, não é simplesmente a dissuasão, mas dissuasão e integração - uma tarefa complicada e sofisticada, mas a correta.

Agir agressivamente parece ótimo e repercute do mesmo modo que o famoso mantra de Sheryl Sandberg: ser agressivo e encarar os riscos.

Mas embora este seja um conceito poderoso e inspirador para as mulheres no mercado de trabalho, é um guia simplista e perigoso para uma superpotência num mundo complexo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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