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Perigos em Sochi

PARIS - Sochi, às margens do Mar Negro, é uma tranquila estância balneária apreciada pelos apparatchiks - funcionários em tempo integral do Partido Comunista soviético da era de Stalin - e também pelos burocratas da época de Putin, aparentemente por ser um pequeno paraíso, com o mar, as palmeiras, as espreguiçadeiras e o ar de indolência de suas graciosas ruas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2014 | 02h00

Hoje, em razão dos Jogos Olímpicos de Inverno, a cidade abriga uma população flutuante de 100 mil militares e sua serenidade é perturbada por helicópteros e drones.

Sochi é chamada "a cidade do sol", o que não é um bom prenúncio para quem organiza competições de esqui alpino, biatlo e assim por diante. A neve é escassa este ano. Mesmo na montanha próxima onde ocorrerão as competições, a 600 metros de altitude, há penúria de neve.

Os organizadores não ligam. Suas enormes baterias de canhões de neve preparam-se para abrir fogo. E, na pior das hipóteses, poderão sempre recorrer ao estoque de neve armazenada no inverno passado, que chega a 300 mil metros cúbicos. Portanto, não há com que se preocupar. O que preocupa é outra coisa: são os atentados. Sochi está a poucas centenas de quilômetros das áreas mais perigosas da Rússia, as regiões muçulmanas do Cáucaso na direção do Mar Cáspio: Daguestão, Chechênia, Ingushétia e Kabardino-Balkaria.

Regiões bravias, que lutam desde sempre contra o Estado russo - a guerra já era endêmica na época de Tolstoi -, onde a energia e a cólera se multiplicaram com a pregação islamista que provoca grande desordem, principalmente a dos salafistas. Basta lembrar o horror da recente guerra da Chechênia.

Os atentados jamais cessaram e os Jogos Olímpicos de Sochi são uma dádiva para os terroristas, se é que se pode dizer assim. Aliás, eles o anunciaram em alto e bom som. No final de dezembro, dois ataques enlutaram a cidade de Volgogrado, deixando 34 mortos. Um mês depois, dois jovens jihadistas reivindicaram a autoria do ataque. E anunciaram outras ações. "Um presente para você, Putin, e para os turistas, para vingar o sangue dos muçulmanos", disseram. No ano passado, na República do Daguestão, as forças do governo mataram 190 islamistas radicais.

Uma expressão é particularmente temida pelos habitantes de Sochi, e mais ainda por 1 milhão de visitantes que a Olimpíada atrairá para a região: a "viúva negra". Trata-se de jovens mulheres cujos maridos foram mortos na jihad. Extremamente piedosas, um dia elas desaparecem. Mais tarde, fica-se sabendo que explodiram diante de um edifício público. Em 2010, duas jovens viúvas do Daguestão foram a Moscou, tomaram o metrô, ativaram o mecanismo e provocaram a morte de 40 pessoas.

Em Makhatchkala, capital do Daguestão, Madina Alieva, casada com um muçulmano morto em combate, detonou-se diante do Ministério do Interior, matando um homem. Inna Tcherenkova, casada com um terrorista, também se tornou famosa. Ela mudou o nome russo pelo de Mariam e foi morta pela polícia russa.

Felizmente, se há um homem que não cede ao pânico é Vladimir Putin. Ele gostaria imensamente que esses Jogos "mostrassem aos visitantes e aos jornalistas a nova Rússia, seu verdadeiro rosto, a fim de que pousasse sobre ela um olhar novo e imparcial". Não há o que temer. "Nós conhecemos perfeitamente a situação", afirmou Putin. "A menor manifestação de fraqueza de nossa parte, o menor medo, só ajudariam os terroristas a pôr em prática os seus projetos."

*Gilles Lapouge é correspondente.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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