Perigosa ilusão nuclear dos EUA

Obama erra ao defender um mundo sem armas atômicas, uma prova de fraqueza e má compreensão da política

ROGER COHEN, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Um mundo sem armas nucleares soa bonito, mas - é claro - foi esse o mundo que nos trouxe a 1.ª Guerra e a 2.ª Guerra. Se esse som te agrada, o coro sentimental da iniciativa "Global Zero" é provavelmente para você.

Eu sou um otimista, em geral, mas um pessimista quando se trata de países se afastando da defesa de seus interesses. Humanos, e não Estados, têm consciência. O compromisso do presidente Barack Obama em seu discurso de 2009 em Praga de "buscar a paz e a segurança num mundo sem armas nucleares" expressou um belo sentimento, mas foi um erro político.

A ideia caiu bem para os noruegueses, que deram a Obama um Prêmio Nobel da Paz que ele não devia ter aceitado. Mas esse botão da paz futura murchou mais rapidamente do que uma flor na noite escandinava. (Um presidente neófito deveria questionar se um prêmio Nobel é de alguma forma comprometedor - além de examinar seus méritos, que foram duvidosos.)

Houve dois lados na adoção por Obama do preceito de um mundo sem armas nucleares. O primeiro foi a "visão", como sua subsecretária de política de Defesa, Michèle Flournoy, a descreveu recentemente no Halifax International Security Forum. Foi uma forma de idealismo utópico, como Obama meio que reconheceu ao dizer que ele "talvez" não veria o fim das armas nucleares durante sua vida. Visões são bonitas - Marx tinha uma das sociedades clássicas. Elas também podem ser perigosas. Helmut Schmidt, ex-chanceler alemão, observou que as pessoas que as tinham deviam consultar um médico.

O perigo foi que Obama, pouco após assumir, seria percebido como fraco ou irrealista por rivais como a China ou inimigos como o Irã, a despeito de seu compromisso, pois "essas armas existem" para "manter um arsenal garantido, seguro e eficaz para dissuadir qualquer adversário". Essa percepção de fraqueza se estabeleceu, reforçada por sua abordagem de seminário acadêmico de um reforço das tropas no Afeganistão, agora a sete meses de ser revertido.

O segundo aspecto da "visão" nuclear foi estratégico. A ideia era que isso daria aos EUA moral para persuadir países a reduzir seus arsenais ou abandonar suas ambições nucleares. O aspecto mais perigoso do mundo no século 21 é a capacidade potencial de grupos cada vez menores provocarem danos cada vez maiores.

Tolice. Na Europa, o resultado foi ambíguo. Flournoy reconheceu que "o exemplo que os EUA estabelecem provavelmente não terá impacto direto no Irã ou Coreia do Norte". A China continua perseguindo a expansão e refinamento de seu arsenal nuclear. A França, com sua amada "force de frappe", sempre foi publicamente cética e privadamente desdenhosa. Seu acordo com a Grã-Bretanha foi interessante pela inclusão da cooperação nuclear e pela declaração do premiê David Cameron de que "conservaremos sempre um dissuasor nuclear independente". Notem o "sempre".

Só com a Rússia houve um avanço. Um novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start, na sigla em inglês) foi assinado no início do ano e está à espera de uma ratificação pelo Senado americano. Ele reduziria os arsenais americano e russo para seu nível mais baixo em meio século. Ele é compatível com as necessidades de defesa dos EUA e deve ser ratificado.

O Japão talvez deixe mais claro por que a iniciativa "Global Zero" é uma ideia natimorta. Como o país de Hiroshima, sempre defendeu o desarmamento. Como o país que enfrenta testes nucelares norte-coreanos e do arsenal chinês, pendura-se no guarda-chuva nuclear americano. O idealismo não o manterá seguro.

Obama não pode renunciar à "Global Zero". Seria tolice. Mas devia fingir que nunca disse isso. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA DO "NEW YORK TIMES"

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