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Perito em dissimulação

Não falta talento ao ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. O ex-chefe de Estado domina a arte de fazer falar sobre ele, de impressionar, de parecer melhor do que todos seus rivais. Hoje, há dois anos afastado da vida política, ainda consegue chegar às manchetes da imprensa francesa e eclipsar seu sucessor, o pobre presidente François Hollande.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2014 | 02h01

Desde as 8 horas de ontem, Sarkozy vive um momento estranho jamais experimentado por qualquer presidente da república francesa (ou ex-presidente) antes dele: está detido na sede do Departamento Central de Luta contra a Corrupção.

Por que os juízes tomaram tal decisão? É difícil resumir. Nicolas Sarkozy está implicado em inúmeras negociatas e não é fácil encontrar o fio condutor desta espécie de labirinto que é a vida do ex-presidente da república.

Sem simplificar excessivamente, as razões de sua prisão decretada na manhã de ontem são as seguintes: os juízes indagam há anos a respeito dos inúmeros pontos cegos do seu itinerário. Sua campanha presidencial de 2007 terá sido financiada pelo tirano Muamar Kadafi? O ditador líbio era amigo do então presidente francês antes de ele mandar matá-lo, no dia 20 de outubro de 2011, para facilitar a intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Líbia (operação organizada pelo próprio Sarkozy) por ocasião do levante da oposição líbia em meio à Primavera Árabe na região.

Os mesmos juízes investigam outro mistério: a campanha eleitoral de 2012 de Sarkozy teria sido financiada pela proprietária da companhia L'Oréal, Madame Bettencourt, bilionária muito idosa, muito generosa e não totalmente lúcida?

No final de suas investigações, os juízes têm a impressão de que Sarkozy organizara ao seu redor toda uma "rede" encarregada de informá-lo sobre as medidas que a Justiça tomara contra ele. E esta rede não era composta de gente pobre ou de segundo escalão. As pessoas encarregadas de servir de escudo para Sarkozy e de avisá-lo sobre os riscos judiciários que o cercavam eram "notáveis", a nata da sociedade francesa: os advogados mais famosos, os magistrados da mais alta hierarquia judiciária, etc. ...

Os nomes dessas pessoas, que desempenhavam uma função de proteção, foram divulgados na manhã de ontem, porque foram detidas juntamente com seu patrão: o célebre advogado Maître Herzog e dois altos magistrados da Suprema Corte.

As conversas por telefone interceptadas pelos juízes são eloquentes: um desses magistrados de alto escalão diz a Sarkozy que, em recompensa por serviços prestados, seria conveniente que conseguisse do Principado de Mônaco sua nomeação para um cargo opulento, prestigioso e inútil, no próprio principado monegasco. "Não há problema", manda responder Nicolas Sarkozy ao magistrado.

E paramos por aqui. Seria tedioso lembrar de todas as negociatas de que o ex-presidente Sarkozy é suspeito: venda de navios de guerra ao Paquistão, indenizações milionárias concedidas a um empresário duvidoso, Bernard Tapie, financiamento inverossímil de sua campanha presidencial em 2012 etc, etc.

Esperteza. O que mais surpreende é que Sarkozy jamais tenha sido incomodado, pois é um "segredo de Polichinelo" que este homem manobrava às margens da legalidade ou do código de honra, sem ser jamais apanhado.

"É verdade", respondem os especialistas. "Mas não devemos esquecer de que Sarkozy é um advogado, esperto, desconfiado, e muito inteligente. O ex-presidente pode estar envolvido em negociatas de todo tipo e jamais poderá ser pego", dizem.

Os amigos de Sarkozy, os que querem que o ex-chefe de Estado seja reeleito presidente em 2017, acrescentam: "Jamais ele será apanhado com a boca na botija. É um grande homem de Estado. Está acima da lei". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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