Peritos forenses argentinos ajudam México

Sul-americanos usam experiência adquirida com ditadura militar para analisar restos mortais em busca de 43 estudantes

JONATHAN, GILBERT, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2014 | 02h02

O desaparecimento - e provável massacre - de 43 estudantes desencadeou uma conflagração social por todo o México. No entanto, enquanto manifestantes ocupavam as ruas, forças federais e investigadores vasculhavam locais ao longo de um rio no Estado de Guerrero, onde os corpos dos estudantes teriam sido queimados e enterrados há menos de dois meses.

Entre esses investigadores estão 12 especialistas forenses da Argentina. Sua presença no México ao longo do caso - escavando restos humanos em vários túmulos clandestinos e comparando o DNA encontrado com os dados coletados dos parentes dos estudantes - é representativa do apoio de Buenos Aires em questões de direitos humanos fora do território argentino.

A Argentina passou por uma ditadura militar de sete anos que terminou em 1983. O país foi castigado por violações profundas de direitos humanos - incluindo o uso de tortura, desaparecimentos e sequestros por parte dos militares. Nas décadas seguintes, porém, os argentinos ocuparam a linha de frente na defesa de direitos humanos - do apoio a novos casos legais que responsabilizam infratores de outros países à identificação de corpos em covas coletivas.

"A Argentina sempre colocou sua própria luta num contexto internacional", diz Valeria Barbuto, diretora do Memória Aberta, um grupo de organizações nascidas das consequências da repressão da ditadura argentina. Ela chama a atenção para a pressão exercida pela Argentina em fóruns internacionais, como as Nações Unidas, para o estabelecimento de diretrizes mais claras sobre como enfrentar abusos de direitos humanos do passado, e assinala que o primeiro procurador do Tribunal Penal Internacional, em Haia, foi um argentino. "Eles compreenderam que este é um esforço global", diz Valéria.

Atuação global. Embora cinco países do Cone Sul da América Latina tenham vivido períodos de ditaduras nos últimos 40 anos, a Argentina foi mais agressiva contra abusos de direitos humanos. Isso resultou na criação de organizações como a Equipe Argentina de Antropologia Forense, que está trabalhando no México.

Treinada nos anos 80 por Clyde Snow, um renomado antropólogo forense americano, a equipe argentina foi fundamental na identificação dos restos em túmulos coletivos de cerca de 600 dos milhares de desaparecidos no país durante a ditadura.

A equipe também tem levado sua expertise pelo mundo: esteve recentemente em El Salvador para investigar um massacre camponês de 1932. Trabalhou em Ciudad Juárez, no México, para identificar os corpos de mulheres que foram assassinadas no auge da violência em uma onda de crimes contra pessoas do sexo feminino.

Agora, no Estado de Guerrero, os argentinos trabalham como especialistas independentes em nome das famílias dos 43 estudantes. "Eles não só são tecnicamente capazes, como têm um compromisso com a justiça", afirma Barbuto. Por enquanto, eles exumaram alguns restos humanos, mas nenhum corresponde aos estudantes desaparecidos. "Isso vai demorar um pouco", explicou Luis Fondebrider, presidente da equipe forense ao jornal argentino Página 12. "Não sabemos quando vamos terminar."

Ajuda. A disposição da Argentina de enfrentar seu passado recente inspirou outros. O país processou os líderes militares responsáveis pelo "desaparecimento" estimado de 30 mil pessoas, nos anos 70 e 80 e procurou incansavelmente centenas de crianças que foram roubadas de prisioneiros políticos e criadas por famílias de militares. Foram cerca de 400 condenações desde que as leis de anistia que protegiam oficiais militares que supervisionaram a "guerra suja" contra guerrilheiros e pessoas associadas à esquerda foram derrubadas, há uma década.

"A Argentina teve a coragem de enfrentar seus fantasmas", diz Ángela Fernández, que faz parte de grupo de espanhóis que está buscando justiça na Argentina por crimes supostamente cometidos pela ditadura de Francisco Franco (1939-75) contra dissidentes espanhóis, como seu pai e seu tio. "Este é um exemplo para todos os países que sofreram crimes contra a humanidade", diz Ángela.

Bloqueados por uma lei de anistia de 1977, os espanhóis moveram uma ação legal no país latino-americano em 2010. No mês passado, María Servini de Cubria, a juíza argentina que reuniu evidências sobre os casos, emitiu ordens internacionais de prisão para 20 pessoas que eram autoridades no regime de Franco, acusando-as de abusos de direitos humanos, incluindo a ordenação de execuções, tortura e, no caso de um médico militar, roubo de um bebê. María invocou o princípio de jurisdição internacional, que permite a tribunais investigar supostos abusos de direitos humanos no exterior.

Quando as leis de anistia estavam em vigor na Argentina, foi um juiz na Espanha que investigou crimes de direitos humanos contra os argentinos. "Como a Espanha ajudou a Argentina, propomos que o sistema legal argentino ajude a Espanha a lidar com seu passado", diz Gastón Chillier, diretor do Centro de Estudos Legais e Sociais, organização de direitos humanos da Argentina. "Tivemos progressos e revezes, mas agora existe um consenso social do qual nós não recuaremos. O mundo está consciente disso." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM BUENOS AIRES

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