Permanência de premier fijiano pode gerar violência

O chefe das Forças Armadas de Fiji, Frank Bainimarama, previu nesta quinta-feira que acontecerá um banho de sangue no país se não o primeiro-ministro fijiano, Laisenia Qarase, não renunciar. Bainimarama afirmou à Radio New Zealand que não tem intenções de comandar um golpe de Estado, como dizem os governos dos Estados Unidos, da Austrália e da Nova Zelândia, mas disse que a atitude do primeiro-ministro fijiano levará o país a um banho de sangue. O militar denunciou o governo - formado por representantes fijianos indígenas e de ascendência indiana - de práticas corruptas. As declarações de Bainimarama foram feitas no Egito, onde está supervisionando as tropas de paz fijianas. A volta do chefe militar está prevista para a próxima semana. A crise começou após dois projetos de lei apresentados pelo governo ao Parlamento, para que os culpados pelo golpe de Estado de 2000 fossem anistiados (Lei de Unidade, Tolerância e Reconciliação) e para que os fijianos indígenas recebessem a propriedade das terras litorâneas (Lei de Qoliqoli). Dos 906 mil habitantes de Fiji, 51% têm origem melanésia e polinésia, enquanto 44% são descendentes de indianos. Após ter tentado neutralizar as medidas durante meses, o chefe militar disse a Qarase, em setembro, que havia duas opções: retirar os projetos de lei ou renunciar. O Grande Conselho de Chefes, o mais alto órgão tradicional do país e que apóia ambos os projetos de lei, aceitou nesta quinta-feira mediar o diálogo entre Qarase e Bainimarama, já que nenhum dos dois descartou essa possibilidade. Ovini Bokini, do Grande Conselho de Chefes, disse que o órgão tem poder para resolver a tensão. O diretor da Polícia fijiana, Andrew Hughes, anunciou nesta quinta a abertura de uma investigação para determinar se Bainimarama cometeu crime contra a segurança do Estado. "Quando o chefe dos militares diz que forçará o Governo a renunciar, isso poderia ser, dada a capacidade do Exército de Fiji, um caso potencial de levante", disse Hughes em entrevista coletiva. O diretor policial acrescentou que Bainimarama não será detido quando voltar do Egito, porque sua detenção poderia ser vista como uma provocação, mas será convidado a prestar depoimento sobre os fatos. Hughes questionou a integridade do Exército, que requereu na quarta-feira uma carga de munição no porto de Suva sobre a qual o Governo tinha ordenado que não fosse descarregada, diante do temor de um golpe de Estado. "Há vários assuntos que me preocupam devido à falta total de consideração (dos militares) com a autoridade civil", disse Hughes, acrescentando que o descarregamento da munição é apenas mais um dos atos questionáveis do Exército. Hughes disse ter informações secretas indicando que Bainimarama não está planejando um golpe, mas acrescentou que a situação poderia mudar. Qarese também expressou sua confiança de que não haverá um golpe de Estado, em declarações à rádio australiana ABC. No entanto, os ministros de Exteriores australiano, Alexander Downer, e neozelandês, Winston Peters, disseram que a ameaça golpista é real e afirmaram que estão concretizando um plano para retirar seus cidadãos de Fiji se a situação piorar. A Austrália enviou dois navios de guerra. Os primeiros-ministros da Austrália, John Howard, e da Nova Zelândia, a trabalhista Helen Clark, criticaram a falta de respeito de Bainimarama a um Governo eleito democraticamente. Howard disse que as ameaças do militar "indicam que é um homem obsessivo com seus próprios pontos de vista, mais do que nos assuntos do país a longo prazo". "Ter um comandante militar que fale de banho de sangue não pode ser muito positivo para os interesses de Fiji", acrescentou Howard. O presidente de Fiji, Josefa Iloilo, que pediu que Qarase afastasse Bainimarama na terça-feira passada, foi internado nesta quinta em um hospital de Suva.

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