Peronismo ainda é o eixo da política argentina

Movimento político criado por Juan Domingo Perón governou durante 23 dos últimos 30 anos e ainda domina a política nacional

Fabián Bosoer, especial para O Estado de S.Paulo,

13 de outubro de 2013 | 02h03

A Argentina é um país imprevisível. Ou muito previsível, dependendo do ajuste da distância da lente e da definição da imagem. Pode ir do neoliberalismo mais anárquico ao neopopulismo mais protecionista; das quedas mais abruptas às recuperações mais aceleradas; escandalizar o mundo e cansar os vizinhos com seus comportamentos ou proporcionar-lhes exemplos de valentia, solidariedade e talento.

Como é possível ser uma coisa e outra ao mesmo tempo, violentando o princípio aristotélico da lógica? O que a Argentina tem de singular que os outros países não têm? A resposta fácil, há mais de 60 anos, é o "peronismo", movimento político ao redor do qual gira a vida política do país desde 1945, que governou durante 23 dos últimos 30 anos, desde a recuperação da democracia, em 1983, com as mais diversas estratégias e equipes de governo. Como disse há alguns anos o ex-ministro do Interior e veterano dirigente, Carlos Corach, "o peronismo é a maneira que tem a Argentina de enfrentar os desafios de cada década".

Nos anos 40, foram Perón e Eva Perón, o "coronel dos trabalhadores" e "a defensora dos humildes". Nos anos 60 e 70, foi uma geração de classe média que ascendeu com as bandeiras da libertação nacional e sucumbiu ao fragor da luta armada e à repressão militar. Nos anos 90, um caudilho de uma província do Norte, Carlos Menem, que colocou o país na globalização neoliberal quando ela começou a se expandir. Nos anos 2000, foi um casal também originário de uma província, mas do Sul, que levantou o país quando a globalização neoliberal deixou um rastro de economias quebradas e de massas excluídas.

No entanto, se perguntarmos se a Argentina só pode ser governada pelo peronismo, a resposta será: provavelmente - se tomarmos como referência o que ocorreu no passado. Desde 1983, apenas um presidente não peronista, Raúl Alfonsín, conseguiu conduzir o país - com sobressaltos - e teve de antecipar a conclusão do seu mandato para entregar ao peronista Menem o bastão de mando e a faixa presidencial, em 1989. A outra alternativa, dez anos mais tarde, de Menem ao radical Fernando De la Rúa, resultou frustrante, pois este último teve de renunciar ao final de dois anos em meio diante de uma grave crise econômica e do marasmo político, em fins de 2001.

Desde então, o peronismo explodiu e continua em seu lugar, é o partido do governo e um sistema político em si mesmo, inclusive com sua oposição. A década de Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner (2003-2013) representa "o peronismo do nosso tempo", como acaba de lembrar o Partido Justicialista, controlado pela Frente Para a Vitória (FPV, dos kirchneristas).

Os que querem suceder a Cristina, em 2015, são também peronistas: o governador Daniel Scioli, que é o delfim da presidente, embora com autonomia e com um ideário próprio, o prefeito Sergio Massa, surgido de suas fileiras e hoje favorito nas pesquisas, que se apresenta como "renovador"; e algum outro governador, como José Manuel De La Sota. Somente se sofrerem um desgaste na espécie de prévia aberta, talvez algum presidenciável não peronista tenha uma chance - como, por exemplo, o socialista Hermes Binner ou o conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires.

No entanto, o passado não costuma ser o único critério - nem mesmo o principal - para se prever o futuro na Argentina, acostumada a surpreender em sua crônica reiteração dos ciclos. Uma resposta mais precisa à indagação inicial seria: não é só o peronismo que pode governar o país, mas, sem ele, não é possível fazê-lo.

É JORNALISTA E COLUNISTA DO 'CLARÍN'

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