Peronistas assinam acordo para o ajuste

Nesta terça-feira, o presidente Fernando De la Rúa conseguiu a foto tão esperada pelos mercados: ele próprio, no histórico salão Branco da Casa Rosada, rodeado pelos 14 governadores do Partido Justicialista (peronista), da oposição, e assinando um acordo de ajuste fiscal que supostamente levará tanto a União como as províncias a um déficit fiscal 0% de forma imediata. As províncias controladas pela coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso já haviam assinado o acordo na segunda-feira. Logo após a assinatura do acordo com os peronistas, o presidente De la Rúa declarou que "este é um momento histórico, pois estamos dando início a um Estado sem déficit, tanto na União como nas províncias. Estamos fazendo um esforço para viver somente com o que arrecadarmos". O presidente afirmou que cada governo que tomou posse herdou problemas dos antecessores e deixou problemas para os sucessores. Segundo De la Rúa, essa cultura de "o próximo que se vire" acabou. "Não sabemos como viverão as gerações futuras, mas tenho certeza que estarão melhores que nós." O presidente sustentou que o acordo "trará a confiança dos mercados, pois demonstra que existe uma classe política que sabe agir com responsabilidade". O ministro da Economia, Domingo Cavallo, que nos últimos dias teve diversos choques com os governadores peronistas durante as negociações, estava calmo. O ministro admitiu que as províncias poderão contar com um "período de transição" para adaptar-se aos cortes. A União, por seu lado, começa seu ajuste neste mês. No entanto, o acordo assinado pelas províncias peronistas não foi o que era desejado pelo governo federal. As províncias decidiram que alcançarão a meta de déficit fiscal 0%, mas através de receitas próprias. No domingo, De la Rúa havia declarado que o modelo do governo federal "não é negociável". No entanto, o pragmatismo venceu na hora de escolher entre o ajuste modificado dos peronistas ou uma nova jornada de turbulências nos mercados. Os governadores peronistas, que controlam as maiores e mais ricas províncias do país, e no total possuem US$ 21 bilhões de dívidas, começaram seus ajustes imediatamente. Carlos Ruckauf, o governador da província de Buenos Aires, a mais endividada do país, implementou um corte nos salários acima de US$ 1,000.00. As reduções salariais seguirão uma escala que irá de 1,9% até 32,5%. O governador José Manuel de la Sota, da província de Córdoba, anunciou que seu ajuste será feito com a aposentadoria antecipada de 5.000 funcionários públicos. Com o acordo sobre o ajuste concluído, De la Rúa agora começa uma nova etapa de seu governo. Com esta decisão, De la Rúa amarrou definitivamente seu destino ao do ministro Cavallo, realizando um rompimento silencioso com grande parte de seu partido, a União Cívica Radical (UCR). O presidente conta com o apoio dos governadores da UCR. Mas estes controlam províncias de pouco peso na economia e política do país. Grande parte do partido está na órbita do ex-presidente Raúl Alfonsín, que é o presidente da UCR e que colocou-se contra o ajuste. No entanto, Alfonsín manteve nesta terça um prudente silêncio para evitar uma crise terminal dentro do partido. Analistas consideram que este silêncio poderá começar a desaparecer quanto mais se aproximarem as eleições parlamentares de outubro. Para evitar que a UCR naufrague junto com De la Rúa em uma quase inevitável derrota eleitoral, o velho caudilho poderá retomar suas críticas ao governo, e mais uma vez, abalar os mercados. Antes disso, De la Rúa terá que enfrentar os deputados da coalizão de governo Aliança, que prometem tentar reverter algumas das medidas do ajuste no Congresso. Desta forma, ocorreria o paradoxo de que o presidente De la Rúa teria maior apoio entre os deputados da oposição peronista do que de seus próprios correligionários.

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