Peronistas celebram 'Dia da Lealdade' sem Cristina Kirchner

Milhares de kirchneristas marcharam em Buenos Aires para celebrar data e declarar apoio a presidente

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

17 de outubro de 2013 | 23h19

BUENOS AIRES - Os peronistas celebraram nesta quinta-feira, 17, o "Dia da Lealdade", a data por excelência desse movimento fundado em 1945 pelo então coronel Juan Domingo Perón. Nesse dia, há 68 anos, um multidão de trabalhadores foi às ruas a liberação de seu ídolo, autor de diversas leis trabalhistas. A presidente Cristina Kirchner não participou das cerimônias, já que está de licença médica, motivada pela operação que sofreu na terça-feira da semana passada nas membranas cerebrais. No entanto, cartazes espalhados pela cidade mostravam em uma fotomontagem um virtual "encontro" entre dois casais peronistas: Néstor Kirchner e Cristina com Perón e Evita Perón.

Milhares de militantes kirchneristas marcharam ontem no centro portenho, rumo à Praça de Mayo, para celebrar o "Dia da Lealdade" e declarar respaldo a Cristina, cujo governo enfrentará decisivas eleições parlamentares no dia 27. As pesquisas indicam que o governo sofreria uma dura derrota nas urnas. "Todos com Cristina" eram os dizeres das faixas. A poucos quarteirões dali os sindicatos aglutinados na Confederação Geral do Trabalho (CGT), central que rachou com Cristina no ano passado, fazia sua própria cerimônia, com críticas à falta de "peronismo" da presidente, a quem acusa de "trair" a classe trabalhadora.

O governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, kirchnerista 'light' que desponta como virtual candidato à sucessão de Cristina em 2015, comandou uma das cerimônias governistas. Scioli afirmou que Cristina "voltará daqui a poucos dias", sugerindo um virtual retorno antes do final dos 30 dias de licença.

O principal rival do kirchnerismo nas eleições parlamentares, o ex-kirchnerista Sergio Massa, prefeito de Tigre, presidiu uma cerimônia onde reuniu representantes do peronismo dissidente.

Os participantes de todas as cerimônias entoaram a marcha "Los Muchachos Peronistas", canção que tem um refrão que diz "combatendo o capital". No entanto, muitos deles possuem boa relação com o capital, registrando significativos aumentos em seus patrimônios. Vários ministros do gabinete Kirchner moram no elitista bairro de Puerto Madero ou na elegante avenida Libertador. A própria Cristina é oficialmente a segunda presidente mais rica da América do Sul, atrás do presidente chileno, o bilionário Sebastián Piñera.

A "lealdade" é considerada a principal commoditie do partido. Mas tem seus limites, algo que pode ser verificado na atual fuga de aliados que a presidente Cristina padece. O fenômeno é corroborado por um velho ditado do partido: "os peronistas te acompanham até a porta do cemitério. Mas não entram ali".

COMANDO

Ao longo dos últimos 67 anos, desde a eleição de Perón em 1946, os peronistas governaram o país durante 35 anos. E desde a morte do líder em 1974, todos os setores internos do peronismo afirmam que são os verdadeiros representantes do pensamento do mítico Perón.

Atualmente o peronismo divide-se entre "kirchneristas" e "peronistas dissidentes". Os kirchneristas também possuem uma subdivisão, a dos "cristinistas", em contraposição aos que consideram que, quando Kirchner estava vivo, o peronismo era mais autêntico. Além disso, estão os "sciolistas", uma vertente "light" e pró-consenso do kirchnerismo.

Os peronistas dissidentes também padecem diversas divisões internas e não contam com um líder único.

O movimento, desde sua criação, incluiu pessoas dos mais diversos posicionamentos políticos, desde ex-comunistas maoistas, passando por neoliberais ortodoxos (e também Chicago Boys flexíveis), keynesianos, entre outros. O ex-presidente Carlos Menem, emblema do neoliberalismo nos anos 90, atualmente senador, respalda Cristina e sua estatização da empresa petrolífera YPF. Em 1991 foi a vez do casal Kirchner apoiar sua privatização.

FELINOS

Perón indicava que as divergências dentro do peronismo não eram um problema. Ao contrário, contribuíam para a expansão inexorável de seu movimento: "quando os outros nos ouvem gritar acham que estamos brigando. Nada disso..somos como os gatos. Estamos nos reproduzindo!".

Em 1972, quando voltou brevemente à Argentina no final de seu período de exílio, Perón deu uma coletiva de imprensa na qual um jornalista estrangeiro lhe perguntou sobre as forças políticas que disputavam os

votos dos argentinos. Perón mencionou os integrantes da União Cívica Radical, os socialistas, os conservadores, entre outros. Mas, não citou o peronismo. O jornalista lhe chamou a atenção sobre essa aparente omissão. Perón respondeu com ar maroto: "não...é que peronistas somos todos!"

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