‘Peronistas não podem se dar ao luxo de fraquezas’

Desde Perón, briga entre ‘leões’ sempre marcou momentos de sucessão dentro do movimento, diz especialista argentino

Ariel Palácios, correspondente em Buenos Aires,

07 de outubro de 2013 | 22h43

Em 67 anos, desde que Juan Domingo Perón fundou a corrente política que até hoje carrega seu nome, o peronismo governou a Argentina mais da metade do tempo: 34 anos e meio. Perón morreu em 1974 sem deixar um claro sucessor e, de lá para cá, as consagrações de líderes do partido foram traumáticas, exceto em 1988, única vez que o peronismo recorreu às vias democráticas, com uma convenção para definir o novo chefe (disputa vencida por Carlos Menem).

Como a presidente Cristina Kirchner ficou sem respaldo para tentar uma reforma na Constituição que lhe permitiria uma segunda reeleição, o peronismo depara-se com novos problemas sucessórios. "Começa um período fascinante, um verdadeiro espetáculo pela luta para definir quem será o novo caudilho", afirmou, em entrevista ao Estado, o historiador Luis Alberto Romero.

Como se define o chefe na arquitetura política do peronismo?

O peronismo é um movimento que trata de ganhar e conservar o poder. Para isso, é preciso um chefe com carisma e autoridade que articule o conjunto. O peronismo é composto por muitos fragmentos de poder, ostentado pelos prefeitos e governadores, que agem como barões, senhores feudais. São relações com base em lealdades e reciprocidades, embora sustentadas pela conveniência ou temor. E dão resultados cronicamente instáveis. O poder no peronismo, em todos os níveis, seja municipal, provincial ou nacional, deve ser construído e reconstruído permanentemente, controlando deserções. Cada um desses políticos está convencido de que leva em sua mochila um bastão de marechal. E é preciso lembrar que, quando Napoleão foi derrotado, vários de seus marechais decidiram sacrificar e entregar o imperador. O chefe, no peronismo, deve poder comandar de forma ordenada a distribuição dos recursos. Mais ainda, tem de manter a disciplina. Para dar um exemplo didático, poderíamos dizer que são como os reis visigodos. Ou, algo mais atual, como Tony Soprano (o mafioso da série Os Sopranos).

O peronismo tem algum ponto em comum com o mexicano Partido Revolucionário Institucional (PRI) no mecanismo de sucessão?

O peronismo se parece com o velho PRI no vínculo entre partido e Estado. Mas o PRI de antigamente tinha esse estupendo mecanismo de não reeleição presidencial, que lhe deu estabilidade durante décadas. Isto é, com esse mecanismo, quem não teve chance agora poderá ter chances depois. Logo, não criavam dissidências nem novos partidos. Esperavam sua vez. Isso tinha um efeito tranquilizante no PRI. O peronismo nunca teve essa institucionalidade de um chefe que durava seis anos. Ao contrário, ficou parado na etapa do caudilho. Por essa ausência de um mecanismo sucessório, momentos como o atual possuem a dimensão dramática de um documentário da National Geographic. Especificamente, como naquelas cenas nas quais um grupo de leões briga para depois consagrar um novo chefe. É um espetáculo!

E esse espetáculo já começou?

Já. E não é pela derrota de Cristina nas eleições primárias de agosto. É pela evidência de que não haverá uma segunda reeleição dela. Está aberta a temporada de disputas, com vários aspirantes à Casa Rosada que possuem chances bastante equiparadas. Sem uma cúpula, começa o processo de desagregação de todos aqueles que juraram fidelidade ao modelo kirchnerista. Já estamos vendo momentos de peronismo nu, cru e sem poesia. É o caso do sindicalista Omar Viviani, que disse que estará do lado "daqueles que ganhem".

Qual será o futuro de Cristina nestes dois anos que lhe restam de governo?

Cristina continuará sendo a presidente por mais dois anos, independentemente de que seu poder político fique diminuído por causas eleitorais e de saúde. Ela mantém capacidade de decisão, mesmo que suas medidas sejam repudiadas por grandes setores da sociedade e até barradas na Justiça. Mas sempre terá a possibilidade dos decretos. Por outro lado, está muito claro que agora o peronismo pensa no mundo longe de Cristina. E, principalmente, a partir desse cenário novo, com uma presidente que tem um hematoma no cérebro e, eventualmente, pode precisar uma operação. Isso indica uma fraqueza da presidente. E, no peronismo, os líderes não podem ser dar ao luxo de fraquezas.

Não é fácil explicar o que é o peronismo sequer para um argentino.

É complexo. O peronismo é como a Legião Estrangeira: ninguém te pergunta qual foi teu passado. Mas também é como a Santíssima Trindade, pois encerra o mistério de ser um e muitos ao mesmo tempo. Não existe um programa por escrito, uma ideia única ou sequer um sentimento. Tampouco existe uma organização (o Partido Peronista não conta com um presidente há três anos). Mas existe um espaço comum - mais cultural do que político - onde propostas e líderes compartilham valores, linguagens, slogans e acenos que, eventualmente, facilitam essa articulação.

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