Peronistas travam batalha eleitoral

A escolha do governador da província de San Luis, Adolfo Rodríguez Saá, para ocupar a presidência da República em mandato-tampão à espera das eleições do dia 3 de março de 2002, abre algo mais do que um simples período de transição. Na verdade, inicia-se uma dura batalha interna no Partido Justicialista (Peronista), do qual Rodríguez Saá é uma das lideranças menores. Enquanto o peronismo se digladia, o país terá um governo de transição ? comandado por um político escorregadio ? dificilmente em condições de tomar decisões definitivas.Extra-oficialmente, os assessores econômicos do novo governo afirmam que a gestão peronista de transição terá de adotar uma ?pesificação? dos depósitos bancários e das dívidas dos cidadãos argentinos, a maioria das quais está em dólares. A mudança seria seguida de uma desvalorização da moeda, que poderia ficar em uma relação ? inicial ? de 1,40 pesos para US$ 1,00.No entanto, Rodríguez Saá insistiu em afirmar que não desvalorizaria nem dolarizaria a economia. ?Essas eram as saídas do velho governo?, disse, referindo-se às opções que foram levantadas nos derradeiros dias da administração de Fernando De la Rúa.Além disso, o novo presidente causou confusão quando afirmou de forma ambígua que privilegiaria o pagamento dos salários dos cidadãos argentinos antes dos credores internacionais. Poucas horas antes de sua posse, circulou uma versão de que o novo presidente adotaria medidas ?keynesianas?, que incluiria um plano de reflorestamento de 200 mil hectares em todo o país, dando emprego a um milhão de pessoas, além de um programa de casas populares ou de infra-estrutura, que proporcionaria trabalho a outros 500 mil argentinos.Além disso, a equipe econômica do Rodríguez Saá renegociaria a dívida pública com os credores internacionais, declarando o calote. Outra possibilidade seria a criação de uma nova moeda, que substituiria todos os bônus provinciais que circulam pelo país.Isso indicaria que Rodríguez Saá não pretende arcar com os pesados custos políticos de uma desvalorização da moeda e, se fosse o caso, a deixaria para o fim do mandato de transição, no momento em que as medidas de reativação da economia estivessem em andamento.As eleições de março de 2002 serão na verdade uma ampliação, para a esfera nacional, da convenção interna que os peronistas não terão tempo de fazer nos próximos 67 dias. ?La interna?, como denominam a disputa visceral que costuma sacudir o peronismo na hora da escolha de um novo líder, costuma levar muitos meses de discussões, pressões, chantagens e até mortes. Na falta desse tempo, as principais lideranças peronistas decidiram levar a convenção às urnas.Isto será feito por meio de uma alteração da lei eleitoral, permitindo que cada partido possa apresentar diversos candidatos à presidência da República. Denominada de ?lei de lemas?, consiste em um sistema de sub-legendas, no qual vence o partido com maior número de votos. No entanto, o presidente eleito será o da sub-legenda mais votada do partido vitorioso. A intenção dos peronistas é adotar a ?lei de lemas?, apesar dos protestos da União Cívica Radical (UCR), do ex-presidente Fernando De la Rúa, que agora se tornou o principal partido da oposição.Dessa forma, todos os caciques peronistas poderão se apresentar às urnas. Na lista para a sucessão já estão anotados os nomes do governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, e o do governador da província de Córdoba, José Manuel de la Sota. Com menor influência está o governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner. O sempre presidenciável governador de Santa Fe e ex-piloto de Fórmula 1, Carlos Reutemann, ainda não anunciou suas intenções. Além deles, também pretenderia concorrer o ex-vice-presidente e ex-governador de Buenos Aires, o atual senador Eduardo Duhalde. O senador Ramón Puerta, presidente interino por dois dias, entre a queda de De la Rúa e a posse de Rodríguez Saá, também teria intenções de entrar na disputa, mas estaria sendo seduzido para acompanhar Ruckauf em sua chapa, na categoria de vice-presidente.O ex-presidente Carlos Menem está fora do páreo. Por ter sido eleito em 1989 e reeleito em 1995, a Constituição o proíbe de entrar na disputa até 2005.Os peronistas são os favoritos para as eleições. Mas isto pode significar que o próximo presidente argentino seja eleito com 13% ou 15% dos votos. A UCR não sabe ainda quem colocar como candidato, porque qualquer nome teria de enfrentar uma quase inevitável derrota que poderia afundar mais ainda o abalado prestígio deste partido. A centro-esquerdista Frepaso, que até outubro integrou com a UCR a coalizão de governo ?Aliança?, decidiu não apresentar candidato.Somente o Argentinos por uma República Igualitária (ARI) ? um partido que investigou a maioria dos casos corrupção do último ano ? anunciou que sua candidata será a deputada Elisa Carrió.Leia o especial

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