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Perplexidade europeia

Há alguns dias, quando um ex-espião a serviço da Agência de Segurança Nacional (NSA), Edward Snowden, se encarregou de espalhar mundo afora que os EUA costumam espionar seus amigos europeus, que estão a par de todos os seus projetos, seus sucessos, suas derrotas e seus amores, uma explosão de furor sacudiu com a força de um tsunami o espaço dos 28 países da União Europeia - incluindo a Croácia, recém-admitida no bloco.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h02

A retórica antiamericana, que começava a enferrujar, foi retomada, recuperada e devidamente lustrada até brilhar. Explorada até não poder mais, jornalistas, políticos, industriais chegaram a engasgar com sua própria raiva, espumando de indignação, pasmos.

Seria possível que esses nojentos ianques tivessem o cinismo de abraçar os europeus apunhalando-os, ao mesmo tempo, pelas costas? No meio da grita geral, a França manteve, inicialmente, uma posição discreta. Evidentemente, para imitar os colegas, fez algumas críticas aos EUA, mas críticas muito tímidas. Depois, também começou a vociferar. O presidente socialista François Hollande ordenou aos americanos que "cessassem imediatamente as escutas da NSA". Pobre Obama! É fácil imaginar a cabeça do presidente americano quando soube que Hollande o recriminava.

Hoje compreendemos melhor o motivo da discrição inicial de Paris. Ocorre que a França age exatamente como os americanos. Ela também tem seu Big Brother, um espião desmedido, munido de orelhas enormes e olhos de lince que absorvem quantidades monumentais de informações em todas as partes, menosprezando toda amizade e legalidade.

É claro que a desculpa da França é que o seu Big Brother é menos 'big' do que o dos americanos, mas, no fim das contas, é também um pouco 'big'. A Agência Geral de Segurança Externa (DGSE), o organismo que centraliza uma série de serviços secretos, coleta bilhões de dados, os comprime e os estoca. Em seu subsolo, no Boulevard Mortier, em Paris, ela tem um computador com base em FPGA, o mais poderoso da Europa, depois do britânico.

O Le Monde fez algumas avaliações, que copiei sem compreender muito bem, mas que me parecem assustadoras: "Esse equipamento pode gerir dezenas de petabytes de dados, ou seja, dezenas de milhões de gigabytes. O calor desprendido por esses computadores permite aquecer todos os edifícios da DGSE."

A França ocupa um ranking honroso entre os espiões mundiais. De fato, nessa curiosa especialidade, Paris se encontra em quinto lugar, depois de EUA, Grã-Bretanha, Israel e China.

Os outros países europeus têm um desempenho menos expressivo, mas não deixam de cumprir suas obrigações nessa disciplina. Por isso, seus urros de pavor depois das confidências de Edward Snowden sobre o programa Prism foram bastante insólitos ou hipócritas. De fato, depois do primeiro surto, as capitais recuperaram um pouco do sangue frio.

No choque inicial, vários países importantes da UE propuseram que, em retaliação contra Washington, a Europa boicotasse os trabalhos de preparação de um tratado de "livre comércio entre EUA e União Europa", que começará em breve. Era uma decisão majestosa. No entanto, durou pouco. Na quarta-feira, os europeus decidiram dar início às discussões sobre o tema com os EUA, conforme estava previsto.

Decisão sábia. O que não significa que os europeus devam se submeter a todas as exigências e os caprichos muitas vezes exorbitantes dos americanos. E esse será justamente o motivo das discussões. Por outro lado, a questão da espionagem, aparentemente, desinflou um pouco, como uma bola furada.

 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

 

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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