Peru: analista aponta abismo social

O mapa político que surgirá no Peru depois do processo de votação que começou hoje no país deve ser muito semelhante ao que existia antes da surpreendente vitória eleitoral de Alberto Fujimori em 1990, opina Raúl Iribarne, professor de Ciências Políticas da Universidade San Marcos, de Lima. "Embora não tenhamos uma situação de hiperinflação e a atuação da guerrilha tenha-se reduzido quase a zero, o abismo que separa ricos e pobres não diminuiu e há poucas alternativas para tirar a economia peruana da recessão", declarou Iribarne à Agência Estado."O problema principal é a falta de empregos, que a economia informal atenua em Lima, mas é sentida com especial intensidade no interior do país, onde predomina a atividade primária e há pouca predisposição de investidores para torná-la mais rentável", prossegue o professor. "Para que agroindústrias modernas e eficientes se instalem nas regiões de selva e serra, seria necessário um grande investimento em infra-estrutura de transporte para o escoamento da produção. E esse tipo de investimento, hoje, está muito acima da capacidade de endividamento do país. Nossa geografia é responsável por paisagens belíssimas, mas, paradoxalmente, somos vítimas dela."Iribarne destaca que nenhum dos três candidatos presidenciais que chegaram à eleição de hoje com chances de passar para o segundo turno apresentaram propostas concretas para resolver o problema da falta de postos de trabalho no campo. "Nem tinham como fazê-lo. Ninguém que chegue à presidência do Peru pode fazer muito mais do que planejar estratégias para atrair recursos externos que remediem alguns sintomas de um mal mais grave, que só pode ser sanado em longuíssimo prazo", afirma.O temor do professor da San Marcos - berço da sanguinária guerrilha maoísta Sendero Luminoso - é o de que a falta de perspectiva econômica sirva de mote para o surgimento de movimentos rebeldes semelhantes. "Fujimori diferenciou-se dos presidentes que o antecederam, incluídos aí os militares, porque tentou um modelo neoliberal de captação de recursos estrangeiros que estava na moda na época de seu primeiro mandato", explica. "Fracassou tão fragosamente como os outros, mas foi um fracasso diferente e agravado com o golpe de 1992, que pôs fim aos tímidos avanços democráticos no país e, aliado a seu sócio no poder, Vladimiro Montesinos, instaurou um regime despótico baseado no terror de Estado, no controle dos meios de comunicação de massa e na intimidação do Legislalivo e do Judiciário."Segundo Iribarne, a dependência do Peru em relação ao exterior foi, até agora, a grande avalista da redemocratização do país. "Em situações de impasse econômico como a que vivemos já há mais de duas décadas, o poder militar sente-se muito tentado a intervir. Isso não ocorreu até agora porque afastaria de vez os investidores estrangeiros."

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