Peru completa transição democrática

O Peru concluiu neste sábado a sua transição democrática, com a entrega da faixa presidencial pelo chefe do governo provisório, Valentín Paniagua, ao presidente eleito, Alejandro Toledo. A cerimônia no Congresso, que, seguindo a tradição, coincidiu com o Dia da Independência do Peru, foi assistida por 12 presidentes da região, incluindo Fernando Henrique Cardoso, e representantes de outros países. No discurso do brinde, durante jantar no final da noite de sexta-feira com os demais presidentes, Paniagua, advogado constitucionalista, anunciou o fim de 180 anos ? o que o Peru tem de vida independente ? de ?autocracia?. Fernando Henrique, a quem coube responder ao brinde, em nome dos demais presidentes, felicitou Paniagua e o Peru pelo feito. Depois de um ano extraordinariamente turbulento, Toledo assume o comando de um país cujo clima de normalidade já é motivo de comemoração. Em junho do ano passado, o país mergulhava numa crise institucional e numa onda de protestos, depois que Alberto Fujimori era eleito para o terceiro mandato, num segundo turno do qual Toledo se recusara a participar, denunciando fraude na contagem dos votos do primeiro turno. Os protestos, liderados por Toledo, ganharam força com o aparecimento de vídeos gravados pelo então chefe do Serviço de Inteligência Nacional, Vladimiro Montesinos, no qual ele aparecia subornando e fazendo toda sorte de negociatas com juízes, empresários, militares e parlamentares. Montesinos e Fujimori fugiram, e Paniagua, na qualidade de presidente do Congresso, assumiu o governo em novembro, formando um gabinete de técnicos e preparando o caminho para a realização de eleições limpas. Toledo chega à presidência sem nunca ter ocupado cargo eletivo. Suas credenciais são de outra natureza. Nascido numa família de camponeses pobres em Cabana, ao norte de Lima, em março de 1946, o menino Alejandro passou a infância e adolescência em Chimbote, na costa norte. Trabalhou desde pequeno, como engraxate e vendedor de rua, mas conseguiu estudar. Destacou-se na escola e ganhou uma bolsa para fazer o curso de economia na Universidade de San Francisco, na Califórnia, onde se sustentou trabalhando e jogando futebol. Seguiram-se o mestrado e doutorado em economia de recursos humanos em Stanford. Desde então, Toledo foi consultor da ONU, do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, da Organização Internacional do Trabalho e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Foi pesquisador em Harvard, nos EUA, e professor da Universidade de Waseda, no Japão. Ficou conhecido dando palpites sobre questões econômicas e sociais nos meios de comunicação e lançou-se pela primeira vez à presidência em 1995, quando ficou em quarto lugar, com apenas 3% dos votos válidos.

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