EFE/Martin Alipaz
EFE/Martin Alipaz

Peru e Bolívia, aliados improváveis na guerra contra as drogas

Países vizinhos têm atitudes diferentes, mas estratégias semelhantes e poderiam se tornar aliados improváveis no combate ao narcotráfico

The Economist*, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2018 | 16h00

No início dos anos 80, o governo do Peru fundou Ciudad Constitución para ser a capital da região amazônica do país. Hoje, serve como a capital da guerra contra as drogas. As pistas de pouso clandestinas entalhadas na selva fazem da área um centro para contrabandistas. Eles fazem parte de uma “ponte aérea”, com pequenos aviões voando da Bolívia para pegar pasta de cocaína ou cocaína refinada, fazendo uma parada no Peru para reabastecer e seguir para o Brasil, de onde a droga é despachada para a Europa. Um único avião pode transportar 300 quilos de cocaína, no valor de US$ 350 mil.

Peru e Bolívia, que cooperam para interromper a ponte aérea, são uma estranha dupla antidrogas. O Peru é um parceiro dos EUA, país do qual recebe US$ 120 milhões por ano para combater o narcotráfico. O presidente da Bolívia, Evo Morales, já liderou um sindicato de produtores de coca e, em 2008, expulsou do país a DEA, a agência antidrogas dos EUA. 

Os dois países permitem algum cultivo de coca (para usos tradicionais). A Bolívia quase duplicou a área em que os agricultores podem cultivar coca para 220 quilômetros quadrados em 2017. Os EUA revogaram a certificação do programa antidrogas da Bolívia, todos os anos, desde 2008, e sustentam que o país, como a Venezuela, “fracassou de forma comprovada” em implementar as políticas de controle de drogas internacionais e americanas. 

No entanto, o Peru é o maior produtor. A coca cresce o suficiente para produzir 410 toneladas de cocaína por ano, enquanto o potencial da Bolívia é de 275 toneladas. A maior parte da cocaína confiscada na Bolívia vem do Peru.

Nenhum dos países está ganhando a batalha. No Peru, os contrabandistas refazem as pistas de pouso logo depois que a polícia as dinamita, diz Héctor Loayza, general encarregado da agência antinarcóticos Dirandro. A Bolívia tem mais aeronaves e pistas de pouso, em parte porque os “táxis aéreos” são usados como transporte em áreas florestais, como no Departamento de Beni. 

A Dirandro e a FELCN, a polícia antidrogas da Bolívia, identificaram centenas de voos no primeiro semestre, mas apreenderam apenas seis carregamentos de drogas, em parte em razão do tempo necessário para mobilizar equipes nos helicópteros.

s vezes, a perseverança dos “narcos” supera a inventividade dos contrabandistas. Em outubro passado, agentes de Loayza encontraram 1,3 tonelada de cocaína que haviam sido encaixadas em tubos de irrigação. Mas tais sucessos são exceções. A FELCN e a Dirandro apreenderam apenas dez toneladas de produtos à base de coca no primeiro semestre.

Marco Ibáñez, chefe da FELCN, reclama que sua força de 1.400 agentes é de cerca de “um agente por pista de pouso”. Policiar a fronteira de 1.000 km da Bolívia com o Peru, assim como seus 3.300 km de fronteira com o Brasil, é uma “grande dificuldade”. 

Os dois chefes de agência pedem mais recursos. Mais importante, dizem eles, seria a autorização para abater voos suspeitos. “Tudo que precisamos é uma luz verde e, no dia seguinte, os contrabandistas abandonam a ponte aérea”, diz Loayza. Ele ressalta que, em 2016, quando os traficantes pensaram erroneamente que duas aeronaves haviam sido abatidas, os voos desapareceram por dois meses.

Se os governos tivessem condições, seus agentes teriam essa ferramenta. A Bolívia aprovou uma lei, em 2014, que permite a interdição aérea. O ministro da Defesa, Javier Zabaleta, disse em julho que seria implementada assim que um novo sistema de radar estivesse operacional. O Peru aprovou lei semelhante em 2015.

Na verdade, é provável que nenhum dos dois países derrubasse voos com drogas. Os EUA têm se oposto à tática desde 2001, quando o Peru por engano derrubou um avião que transportava missionários americanos. A União Europeia dissuadirá a Bolívia, à qual doará  € 35 milhões (R$ 166 milhões) por ano em ajuda antidrogas. 

As leis sobre o abate violam a lei internacional, escreveu Alonso Gurmendi Dunkelberg, especialista em direito, no ano passado. Além disso, a prática encorajaria os grupos armados a acompanhar as remessas de drogas por terra, disseminando a criminalidade.

Uma melhor ideia, até que as drogas sejam legalizadas, seria fortalecer a cooperação entre Peru e Bolívia. O Peru, por exemplo, não compartilha dados de inteligência. Os EUA poderiam incentivar o trabalho em equipe, tratando a Bolívia não como um inimigo, mas como aliado na guerra às drogas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM  

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.