Peru e Venezuela centralizam atenções de reunião da OEA

O conflito político entre Peru e Venezuela capitalizou todas as atenções no primeiro dia da 36º Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que se realiza na capital da República Dominicana. A reunião anual de chanceleres dos 34 países da OEA, com uma agenda titulada "Governabilidade e desenvolvimento na sociedade do conhecimento", foi aberta pelo secretário-geral do organismo, ochileno José Miguel Insulza, e pelo presidente dominicano, Leonel Fernández. Nas reuniões anteriores à abertura da Assembléia, um mal-humorado Insulza viu frustradas suas tentativas de impedir que um tema fora de agenda, como o conflito político entre Peru e Venezuela, captasse as atenções e se tornasse o assunto principal no início do encontro. Após se ver obrigado a se reunir com os chanceleres do Peru e da Venezuela, o secretário-geral da OEA precisou se referir ao conflitoentre os dois países no discurso de abertura da assembléia, mesmo que discretamente. "Devemos nos acostumar a discutir nossas diferenças com altivez, evitando ideologizar e desqualificar o debate", afirmou. O secretário-geral da OEA expressou sua "plena adesão aos princípios de não-intervenção e respeito mútuo que devem guiar as relações" entre as nações americanas. O Peru apresentou uma queixa à OEA contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, por intervir no processo eleitoral peruanocom constantes críticas ao candidato presidencial Alan García. Chávez também ameaçou romper relações diplomáticas com Lima, se García ganhasse as eleições deste domingo, o que de fato ocorreu. Diante das tentativas de Insulza de desprezar a queixa do Peru, o chanceler peruano, Oscar Maúrtua, exigiu ao secretário-geral diante dos outros chanceleres da OEA que cumpra suas responsabilidades erespeite os princípios da Carta constitutiva do organismo. "A OEA não pode permanecer indiferente nem impassível diante de uma reiterada prática intervencionista que prejudica agora o Peru,mas que pode afetar a longo prazo a estabilidade democrática de todo o hemisfério", disse Maúrtua a Insulza. "O senhor, secretário-geral, tem como uma de seus principais funções velar pela vigência e a proteção da Carta constitutiva" da OEA, ressaltou.Farpas "Permanecer alheio a esta situação é destruir as bases normativas sobre as quais se baseia o sistema interamericano", afirmou o embaixador peruano. Após ser convocado por Insulza para uma reunião fechada, o chanceler venezuelano, Alí Rodríguez, declarou que a Venezuela não tem que se defender de nada, e que a única coisa que o presidente Hugo Chávez fez foi responder aos ataques de Alan García. Os ataques de García a Chávez são "sistemáticos" e chegaram ao grau da "estupidez", afirmou o ministro venezuelano. Robert Zoellick, subsecretário de Estado americano e chefe dadelegação dos EUA na assembléia, apoiou as críticas feitas contra a Venezuela. Na reunião entre os chanceleres da OEA, Zoellick assegurou que não foi somente o Peru que criticou Caracas. Essas críticas não surgiram somente do Peru, mas também da "Nicarágua e de outros", disse. Na sua opinião, é "encorajador" que as democraciaslatino-americanas que acreditam que a Venezuela se intrometeu em seu processo democrático estejam se defendendo. Antes da reunião privada de chanceleres foi realizada uma sessão pública aberta a todas as organizações e países convidados à assembléia como observadores, presidida pelo chanceler dominicano, Carlos Morales Troncoso. Morales decidiu unilateralmente encerrar a sessão sem conceder a palavra a nenhum representante das organizações não-governamentais e da sociedade civil convidados e que tinham reservado um espaço para expressar seus pontos de vista. A atitude de Morales indignou essas organizações, cujosrepresentantes improvisaram uma entrevista coletiva para protestar. "A OEA está cada vez mais deslegitimada, afastada da sociedade civil. Seu discurso não é colocado em prática e demonstrou que é incapaz de tomar qualquer decisão", disse o representante daAnistia Internacional, o peruano Hugo Rodríguez. "Viemos aqui, pagando nossa passagem e hotel do próprio bolso, e agora o chanceler dominicano não nos deixa falar", reclamou. "Embora a responsabilidade seja da OEA, não nos surpreende que esta atitude parta do governo dominicano, que preside a reunião e deu mostras de falta de respeito à sociedade civil, e até mesmo racismo contra o povo haitiano", acrescentou.

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