Rodrigo Abd/AP
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Peru fica temporariamente sem presidente e sem chefe do Congresso

Após a renúncia de Manuel Merino, parlamentares também deixaram seus cargos; Rocío Silva Santisteban, vista como candidata de consenso, teve 52 votos contrários e não assumiu o Parlamento

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2020 | 05h40
Atualizado 16 de novembro de 2020 | 18h23

LIMA - O Peru ficou sem presidente neste domingo, 15, após a renúncia de Manuel Merino em meio a protestos cinco dias após assumir o poder. O Congresso também ficou sem chefe após a saída de seus membros.

À noite, o Congresso não concordou em eleger como novo presidente do Peru a legisladora de esquerda Rocío Silva Santisteban, supostamente candidata por consenso. Ela precisava de 60 votos e obteve apenas 42, com 52 contra e 25 abstenções.

"É uma surpresa porque custou muito trabalho fazer uma lista de consenso", disse Santisteban ao site peruano RPP. A maior surpresa, segundo a parlamentar, foi a posição do Aliança para o Progesso (APP),  partido que manifestou apoio à candidatura, mas apenas metade dos congressistas do APP votaram favoravelmente.

Na lista única de Silva Santisteban estava como número dois o parlamentar Francisco Sagasti, do partido centrista Morado, o que significa que ele seria o presidente do Parlamento.

Isto levou a uma reunião a portas fechadas entre os líderes das bancadas para buscar uma maneira de superar a paralisação, enquanto milhares de manifestantes permaneciam pacificamente nas ruas.

“Há imaturidade política de alguns e falta de autoconsciência de outros diante do que aconteceu no país na última semana”, disse aos jornalistas o parlamentar Alberto de Belaunde, do Partido Morado.

"Eles estão mandando o Peru para o mar. Irresponsável!", Acrescentou Alva, reprovando o Congresso.

Ao jornal El Comercio, Júlio Guzman, líder do partido, anunciou uma lista para assumir a presidência do Parlamento composta apenas por membros de sua bancada e encabeçada por Sagasti. Novas candidaturas podem ser apresentadas até o início da tarde de segunda-feira e uma nova sessão terá início uma hora depois. 

“O congresso tinha nas mãos a solução para esta crise política que gerou. No entanto, hoje viraram as costas ao país”, tuitou a ex-ministra da Economia de Vizcarra María Antonieta Alva.

População celebra renúncia de Merino

A renúncia de Merino gerou comemoração nas ruas peruanas após vários dias de protestos duramente reprimidos pela polícia, nos quais houve duas mortes e cem feridos.

“Quero que todo o país saiba que apresento a minha renúncia irrevogável ao cargo de Presidente da República”, declarou o fugitivo presidente à televisão. Poucas horas depois, a diretoria do Congresso, chefiada por Luis Valdez, renunciou, deixando temporariamente o país andino sem autoridades dos poderes Executivo e Legislativo.

Merino substituiu o popular presidente Martín Vizcarra na terça-feira, um dia depois de ele ter sido destituído pelo Congresso por um caso de suposta corrupção.

O Congresso deve nomear um novo presidente para pacificar o país. Será o terceiro em menos de uma semana, em um país duramente atingido pela pandemia do coronavírus e pela recessão econômica, que mergulhou em uma crise política após a remoção de Vizcarra.

Merino, um político de centro-direita de 59 anos, disse que para evitar um "vácuo de poder", os 18 ministros foram empossado na quinta-feira permaneceriam em seus cargos temporariamente, embora virtualmente todos tenham renunciado após a repressão aos manifestantes no sábado.

Assim que Merino anunciou sua renúncia, as ruas de Lima se encheram de manifestantes batendo panelas e gritando palavras de ordem em uma festa tumultuada. "Conseguimos. Você percebe o que somos capazes de fazer?", escreveu o time peruano de futebol Renato Tapia nas redes sociais.

O ex-presidente Vizcarra comemorou a renúncia do presidente e instou o Tribunal Constitucional a decidir o mais rápido possível sobre sua destituição em 9 de novembro. "Um pequeno ditador saiu do palácio", disse a repórteres.

As manifestações de sábado deixaram dois mortos e 94 feridos, segundo autoridades do Ministério da Saúde. Mas o Coordenador Nacional de Direitos Humanos afirmou que 112 ficaram feridos e alertou que também houve uma dezena de "desaparecidos" durante as marchas.

A repressão a esses protestos custou a Merino o pouco apoio político que tinha. O presidente do Congresso, Luis Valdez, exigiu sua "renúncia imediata", somando-se à demanda que milhares de manifestantes haviam feito desde terça-feira.

Merino, um político provinciano quase desconhecido dos peruanos antes de assumir o cargo, foi criticado até por figuras de seu próprio partido, como o prefeito de Lima, Jorge Muñoz.

Os mortos nos protestos de sábado foram identificados como Jack Bryan Pintado Sánchez, 22, e Inti Sotelo Camargo, 24, segundo a polícia. Fotos de ambos circulam nas redes sociais com o título "Heróis do Bicentenário" (que o Peru fará em 28 de julho de 2021).

Crítica internacional

A ação policial foi severamente questionada pela ONU e por organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, desde o início dos protestos na terça-feira, dia em que Merino assumiu o cargo.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), lamentou a morte dos dois manifestantes e exigiu “uma investigação imediata dos fatos e estabelecimento de responsabilidades".

"Não tenho responsabilidade pela violência", declarou o número dois do governo, o primeiro-ministro Ántero Flores-Aráoz, no domingo.

Da Espanha, o escritor peruano e ganhador do Nobel Mario Vargas Llosa pediu o fim da "repressão contra todo o Peru" e pediu que Merino fosse substituído por "uma pessoa verdadeiramente independente" e que dê garantias de imparcialidade nas eleições presidenciais e legislativas de abril de 2021./AFP, Reuters

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