Peru negocia fim de protesto antimineração

Manifestações desafiam lei de exceção imposta em Cajamarca após mortes em mobilizações

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h06

Apesar do estado de emergência imposto pelo Executivo do Peru no Departamento de Cajamarca, no norte do país, após forças policiais terem matado manifestantes durante um protesto contra o novo projeto de uma mineradora que atua na região, no dia 3, os moradores locais continuam organizando manifestações, desafiando o decreto que lhes restringe o direitos de reunião e livre trânsito nas três províncias onde vigora.

Ao todo, cinco pessoas foram mortas no início da onda de protestos, em Celendín e Bambamarca, onde as mobilizações contra o Projeto Minas Conga, que, no fim de junho, obteve autorização do governo do presidente Ollanta Humala para extrair ouro e cobre da região. Os moradores temem que as novas instalações da mineradora Yanacocha - que preveem um investimento de US$ 4,8 bilhões, financiados quase totalmente pela empresa americana Newmont - prejudiquem fontes de água da região.

Em entrevista ao Estado, o governador do departamento, Gregorio Santos, afirmou que "as manifestações continuarão enquanto Humala não der uma resposta". "Exigimos que o Executivo levante o estado de emergência imediatamente", disse Santos, um dos líderes dos protestos de Cajamarca.

Há um ano e meio no poder, o governador afirmou que convocou entidades ambientais e encomendou, com base no projeto, análises sobre o impacto da nova mina. Segundo Santos, "as avaliações foram inconclusivas e estudos complementares são necessários".

"A empresa tem de retirar suas máquinas (de onde pretende extrair minério) enquanto os relatórios são debatidos", disse. De acordo com ele, o governo federal tem de "respeitar a determinação do povo", após um referendo sobre o assunto. Santos exige ainda que as mortes de manifestantes sejam investigadas e os responsáveis, punidos.

Promessas

 

A Yanacocha, que já explora a maior mina de ouro da América do Sul em Cajamarca, promete contrapartidas sociais e a construção de quatro reservatórios de água para compensar o impacto ambiental do novo projeto. Analistas políticos peruanos, no entanto, afirmam que a empresa não tem credibilidade com os moradores.

"A Yanacocha tem um passado obscuro em Cajamarca. Sempre se portou muito mal. Deixou de entregar escolas e falhou em contratar a quantidade de trabalhadores locais que havia prometido", disse Adriana León, do Instituto Imprensa e Sociedade.

Segundo Adriana, a desconfiança se deve também a um derramamento de 151 quilos de mercúrio, em 2000, que, de acordo com o governo, prejudicou a saúde de aproximadamente mil pessoas. O acidente ambiental ainda está na memória dos moradores.

O cientista político Eduardo Toche, do Centro de Estudos e Promoção do Desenvolvimento, afirmou que o Estado peruano nunca se preocupou em estabelecer metas ambientais. "Falta regulamentação (para o setor) e vontade política para impor limites. Sempre se falou apenas em atrair investimentos."

Os especialistas concordam que também falta credibilidade a Humala para negociar uma saída para a crise. "Ele buscou votos em setores muito críticos à mineração sob o lema 'Água sim, ouro não', principalmente em Cajamarca. Isso deixou evidente que ele estava do lado deles. Agora, o presidente defende o extremo oposto da questão", disse a cientista política Cynthia Sanborn, da Universidade do Pacífico.

"Não podemos correr o risco de o país romper com o estado de direito", disse o presidente peruano - cuja popularidade foi prejudicada pela crise - ao mencionar o caso antes da recente onda de protestos. Humala afirmou que tem de manter o compromisso do governo anterior com o projeto. Ele garantiu que estudos ambientais impõem limites à Yanacocha e prometeu obras públicas para manter o abastecimento de água na região. A Igreja Católica entrou nas negociações para a solução da crise.

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