Peru sairá ganhando em eleição presidencial

Seja qual for o resultado da eleição presidencial, o Peru sai ganhando. A constatação foi feita pelos dois candidatos, logo de manhã. Sua referência imediata é a derrota de 2 a 1 para o Equador, no sábado, que aniquilou as esperanças dos peruanos de participar da Copa do Mundo de 2002. Mas seu sentido mais profundo é outro: a simples realização de uma eleição limpa, sem margem de contestação, já é um tremendo feito para o país.Há um ano, as suspeitas de fraude na eleição presidencial mergulharam o Peru num impasse político e institucional. A própria candidatura do então presidente Alberto Fujimori ao terceiro mandato, acatada por um tribunal eleitoral manipulado por ele, já era problemática. Na noite de 9 de abril, em que se realizou o primeiro turno, a boca-de-urna e as projeções sobre a contagem parcial dos votos colocaram Alejandro Toledo em primeiro lugar.A contagem oficial avançou, claudicante, conferindo às vezes a vitória de Fujimori já no primeiro turno, com mais da metade dos votos válidos, para recuar, como se os funcionários do governo brincassem com os números para medir as reações. O resultado oficial final deu a Fujimori 49,9% dos votos válidos, na justa medida para realizar o segundo turno, e 40,2% para Toledo, que denunciou a fraude e se recusou a concorrer no segundo turno, dia 28 de maio. Fujimori assumiu dois meses depois. Em novembro, renunciou e exilou-se no Japão, em meio a uma onda de denúncias de corrupção, respaldadas por dezenas de vídeos com seu chefe do serviço secreto e eminência parda, Vladimiro Montesinos, subornando inúmeras figuras, inclusive da oposição. Em apenas cinco meses, o Peru foi capaz de constituir um Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) confiável e realizar o primeiro turno de nova eleição presidencial e para o Congresso, no dia 8 de abril, em clima de absoluta normalidade. Nem mesmo a disputa apertada pelo segundo lugar, entre Alan García, que teve 25,78% dos votos, e Lourdes Flores, com 24,30% - Toledo venceu com 36,51% - motivou contestações."Independentemente de quem ganhe, o importante é lançarmos as bases de uma democracia estável, sólida e verdadeira", sorria ontem timidamente o artífice da transição, o presidente Valentín Paniagua, que presidia o Congresso quando Fujimori foi destituído por "incapacidade moral permanente" e os dois vice-presidentes da República renunciaram. "Meu sentimento é de satisfação, ao concluir a transição e comprovar que as reservas morais do Peru são enormes." Com a posse do presidente eleito, dia 28 de julho, Paniagua, advogado constitucionalista, retorna para seu escritório e para as universidades onde dá aula. "As diferenças entre essas eleições e as do ano passado são enormes", avaliou ontem o chefe da Missão Observadora da Organização dos Estados Americanos (OEA), Eduardo Stein. "Vivia-se sob o contante cerco do aparato interventor e toda a etapa prévia e posterior à eleição era como mergulhar em águas turvas", comparou Stein, ex-chanceler da Guatemala. "Agora, são cristalinas."

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