Peruano Ollanta Humala é novo foco de inquietação para EUA

A temperatura política sobe na América Latina com o avanço de uma marcha que pode ser definida como populista, nacionalista ou esquerdista. Seja o que for, é um caminho que não interessa aos Estados Unidos, que tanto negligenciaram a região nos últimos anos. Mais um marco desta marcha poderá ser estabelecido com a eleição no Peru - que terá o primeiro turno neste domingo -, que coloca Ollanta Humala em uma corrida apertada contra a candidata conservadora Lourdes Flores, ou à frente, de acordo com algumas pesquisas. Publicamente, a diplomacia de Washington prefere não fazer alarde com o rumo das coisas e investe em uma retórica genérica. A secretária de Estado Condoleezza Rice, por exemplo, disse em recente depoimento no Congresso que a administração Bush "não tem problemas com os governos de esquerda na América Latina, desde que governem democraticamente e procurem melhorar a vida de seus povos". "Esquerda do bem" Condoleezza Rice ressaltou que os Estados Unidos mantêm "relações muito boas com o Brasil, que tem um governo de esquerda" e, "excelentes" com o Chile, onde recentemente assumiu o poder a socialista Michelle Bachelet. A avaliação positiva é fácil quando envolve a "esquerda do bem", ou seja, governos bem comportados que adotam ou dão continuidade a políticas econômicas que não balançam o coreto, além de evitarem a estridência antiamericana do venezuelano Hugo Chávez. Mesmo quando se trata da "esquerda do mal", ou seja, governos como o de Chávez, a preferência diplomática dos Estados Unidos é por não colocar mais lenha na fogueira, e assim, não atiçar ainda mais o populismo antiamericano. Isto fica patente no caso do boliviano Evo Morales, e a dose se repete agora na campanha eleitoral peruana. Quadrilha Obviamente existe preocupação em Washington com a eventual ascensão ao poder de Humala, que iria ampliar um arco populista na América Latina, em particular na turbulenta região andina. Em uma espécie de dança da quadrilha, Humala se identifica com Chávez que, por sua vez, tem laços estreitos com o cubano Fidel Castro. Em comum com Evo Morales, que governa a Bolívia, terceiro produtor mundial de coca, o candidato populista no Peru (segundo produtor) não tem nenhum entusiasmo pelo programa de erradicação da planta defendido pelos americanos. O consolo para Washington é que na Colômbia (primeiro produtor) tudo corre pela reeleição em maio do mais amigável Álvaro Uribe. E nunca podemos esquecer a importância das outras commodities da região andina. A Venezuela significa 14% das importações americana de petróleo e a Bolívia tem as segundas reservas de gás (após a Venezuela). No Peru, se ganhar, Humala promete renegociar os contratos de gás e petróleo, aumentar os impostos sobre os lucros das companhias mineradoras estrangeiras e aumentar a participação do Estado em setores estratégicos da economia. Investidores No poder, outros populistas latino-americanos talvez não possuam o cacife de Hugo Chávez - que tem uma diplomacia movida a receitas de petróleo - e sejam forçados a adotar uma política econômica mais moderada. E a curto prazo, investidores estrangeiros não manifestam pânico. Em um relato sobre a reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Belo Horizonte, esta semana, o jornal Financial Times concluiu que o "otimismo é palpável" sobre as oportunidades na América Latina, com banqueiros e gestores de fundos imunes ao "volátil estado de espírito político". Nada disso neutraliza o desprazer geopolítico em Washington com o cenário da troica Chávez-Morales-Humala no poder. O desprazer somente irá aumentar caso se configure um quarteto com a vitória de Andrés Manuel Lopez Obrador nas eleições mexicanas em julho, embora o candidato populista esteja se empenhando nas últimas semanas para se distanciar de Hugo Chávez. Mesmo dentro da "esquerda do mal" existem nuances, o que complica ainda mais a diplomacia hemisférica do governo Bush.

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