Peruanos combatem tráfico com chocolate

Estratégia. Na cidade de Tocache, ao norte de Lima, agricultores trocam a folha de coca pelo plantio de cacau

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Barras de chocolate tornaram-se a principal arma no combate ao narcotráfico na cidade de Tocache, ao norte de Lima. Assombrados por um passado violento ligado ao tráfico de drogas e à atuação da guerrilha maoista Sendero Luminoso, agricultores de uma cooperativa local abandonaram o cultivo de folhas de coca para plantar cacau.

A iniciativa deu certo e o doce feito com os grãos produzidos na região ganhou destaque internacional ao receber o título de "mais aromático do mundo" no Salão do Chocolate de Paris do ano passado.

"A cidade ficou famosa porque pela primeira vez no Peru temos uma área onde o cultivo de folha de coca está perdendo espaço", afirmou ao Estado, por telefone, Jochen Wiese, técnico responsável pelos programas de desenvolvimento alternativo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em Lima. "Tocache foi um caso de sucesso e pode servir como exemplo para outras regiões do país."

Durante os anos 80, Tocache era uma das zonas mais emblemáticas do narcotráfico peruano, servindo de refúgio para cartéis de droga e grupos guerrilheiros. "Naquela época, quando você caminhava pelas ruas do centro, o comércio era dominado por pasta básica para produção de cocaína", lembrou Jaime Antezana, pesquisador peruano especializado em narcotráfico. "Tudo indicava que a cidade se manteria como uma zona importante do tráfico de drogas, mas cinco anos atrás uma conjunção de fatores fez o cenário mudar."

Os principais fatores, segundo o pesquisador, foram a adoção de um programa de erradicação voluntária do cultivo e uma maior fiscalização do governo. No entanto, a produção de folhas de coca só começou a cair quando Lima investiu em projetos de desenvolvimento alternativo com a cooperação de Estados Unidos, Alemanha e União Europeia. Só na última década, o investimento americano nesses projetos ultrapassou US$ 110 milhões.

"O fator crucial para o êxito em Tocache só foi possível pela persistência dos programas adotados na região com as agências de cooperação internacionais", explicou o historiador peruano Eduardo Toche, do Centro de Estudos e Promoção do Desenvolvimento. "Esses setores foram responsáveis pela difusão de conhecimento entre a população para cultivar o cacau e para formar cooperativas."

Para Wiese, do UNODC, a iniciativa só deu certo porque contou com a colaboração da comunidade. "Se você propõe para as pessoas o cultivo de um produto que dá dinheiro e oferece a oportunidade de viver em paz, longe da violência do tráfico, elas aceitarão." Segundo ele, o projeto será ampliado para consolidar o Peru como um dos maiores produtores mundiais de cacau. "Estamos criando um laboratório para analisar a qualidade do cacau e assim diversificar o produto no mercado."

Resistência. Apesar do sucesso da iniciativa na cidade, a situação em Tocache ainda é diferente do restante do país. Dados da ONU colocam o Peru como o segundo maior produtor de folhas de coca no mundo, perdendo apenas para a Colômbia.

"O governo não tem uma política de combate ao narcotráfico consistente para todo o país", afirmou Toche. "A única preocupação do Estado atualmente é o controle militarizado de algumas zonas cocaleiras cujos resultados são um grande fracasso." Em 2008, a área de cultivo da planta cresceu 4%, ocupando 56,1 mil hectares do território peruano. A produção de cocaína acompanhou o crescimento, chegando a 302 toneladas no mesmo ano. "O Peru continua sofrendo com o narcotráfico, que não para de crescer", afirmou Antezana. "Infelizmente, Tocache ainda é apenas uma exceção."

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