Peruanos contam os mortos e novo tremor leva pânico a Pisco

Terremoto de 5,5 graus foi uma réplica do abalo principal, mas assustou os moradores da cidade devastada

Roberto Lameirinhas, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2018 | 00h00

A terra voltou a tremer ontem na devastada Pisco, causando mais pânico à população já traumatizada pelas mais de 300 mortes de quarta-feira. No país inteiro, o número oficial de mortos passa de 500, com 1.500 feridos, muitos dos quais em situação crítica. O tremor de ontem, considerado uma das mais de 500 réplicas do abalo principal pelo Instituto Geofísico do Peru, foi de 5,5 graus da escala Richter e durou apenas alguns segundos. Postes de eletricidade balançaram, o reboco das paredes de algumas ruínas caiu e mulheres e crianças gritaram em desespero, temendo a repetição da catástrofe de 8 graus e 2 minutos de duração que reduziu a cidade a um monte de escombros 36 horas antes. Em meio ao corre-corre, José Rivas - que contava como perdeu uma tia e uma sobrinha, além da casa, na tragédia de quarta - empurrou o repórter do Estado para o meio de uma esquina. "Essa réplica foi uma das mais fortes desde o terremoto", disse. "É preciso que a Defesa Civil derrube logo as paredes que ficaram em pé, ou mais gente vai se machucar aqui." Segundo as autoridades peruanas, esses tremores secundários tendem a tornarem-se menos intensos e menos freqüentes nos próximos dias. DESTRUIÇÃOPisco, de 130 mil habitantes - quase todos pescadores ou proprietários de pequenos cultivos de subsistência -, converteu-se em um cenário de pesadelo. As construções que não desabaram estão condenadas e foram interditadas pelas autoridades. A cidade está envolta em uma nuvem de poeira e os moradores, desesperados, abordam todas as pessoas pedindo por qualquer tipo de ajuda: uma garrafa de água mineral, uma barra de chocolate, um biscoito. "Não temos dinheiro e, mesmo que se tivéssemos, não nos ajudaria muito nessa situação", afirmou uma moradora da cidade. "Não há nada que se possa comprar, não há um único armazém que possa nos vender algo." No intervalo de poucos minutos, dois corpos são encontrados pelos bombeiros com a ajuda de cães farejadores. Seguem-se os gritos de dor dos parentes. Casas funerárias de Lima enviaram ontem 300 caixões para as cidades mais atingidas pelo terremoto. Ainda assim, a oferta não supre a demanda. Uma das vítimas da tragédia, Cruz Milagro Chuchuya, teve seu corpo velado a céu aberto, sem caixão, numa cama. Ela tinha 32 anos e estava na Igreja de San Clemente, varrida do cenário da cidade pelo tremor. A casa onde ela vivia com a mãe não desabou, mas as rachaduras tornaram-na inabitável. Em meio ao luto e ao frio de 9 graus da madrugada de ontem, a família dormiu ao relento, ao lado do corpo. O governo do presidente Alan García anunciou a concessão de um auxílio-funeral extraordinário de 1 mil sóis (cerca de US$ 300) para o sepultamento das vítimas da catástrofe. Pisco está sem eletricidade desde o terremoto. As equipes de resgate, que vinham trabalhando sem interrupção à luz de geradores a diesel, pareciam ontem ter perdido a esperança de encontrar pessoas vivas sob os escombros. O trabalho de militares, homens do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil se reduzia à burocracia de organizar filas de desabrigados para o recebimento de víveres, à exposição de cadáveres para reconhecimento no chão da Praça de Armas e à observação atenta para que jornalistas não atravessassem as faixas com as quais haviam cercado as ruínas.

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