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Pesadelo: 'Nem na Síria tem fome como aqui'

Publicitária vende bens e começa a traçar planos para deixar a Venezuela com a família’

Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

Elaina Patricia Mirabal Carrion ainda tem esperança no referendo revogatório que retiraria o presidente Nicolás Maduro do poder ainda este ano. Aos 38 anos, a publicitária luta por melhoras no país há 17. Manifestante contra o fechamento de um canal de TV a mando de Hugo Chávez tempos atrás, diz sonhar com o dia em que famílias não mais se despedirão dos filhos em aeroportos. “Acho que essa é a razão pela qual ainda não saí daqui.”

Mas essa luta contra os chavistas está lhe causando problemas e ameaças de simpatizantes do regime. “Meu filho quer ir embora, tem medo de que algo de ruim nos aconteça”. Diante disso, ela pôs à venda tudo o que possui e passou a planejar seu destino. Entre as opções estão Chile, Equador e Brasil. “A cotação do real é muito propícia e eu falo português, embora o alto índice de desemprego me preocupe”, diz.

Apesar dessa dificuldade, ela disse já ter ouvido relatos de pessoas que conseguem empregos que pagam somente o salário mínimo no Brasil, mas que isso é suficiente para comprar comida. “Para nós, venezuelanos, qualquer lugar é muito melhor do que a Venezuela”, lamenta. Elaina conhece histórias de conterrâneos que estão indo para Chile, Uruguai e Paraguai.

Caso se decida pelo Brasil, pretende fazer uma solicitação formal de refúgio. Elaina acredita haver uma crise humana na Venezuela. “Não há remédio nem para dor de cabeça aqui”. Como publicitária, tem um salário muito maior do que o mínimo, diz, mas não é suficiente para fazer compras. “Nossos filhos vivem na angústia de não saber o que vão comer e já estamos comendo um arroz destinado à ração animal.”

O problema da escassez de alimentos não afeta apenas os pobres. “Meu irmão esteve em um bairro de classe alta em Caracas e 1 kg de leite em pó custava 52 mil bolívares, o que equivale a dois salários mínimos”, conta a moradora de Maracay, no Estado de Aragua, a 120 km da capital. “Algumas mulheres da Síria me contaram que nem lá, onde há guerra, existe um problema de fome tão grande como aqui.”

Filha de uma equatoriana e casada com um português, Elaina lembra que o país estava acostumado a receber imigrantes e era rico em cultura. “O lugar que um dia foi o sonho latino-americano para muitos, hoje é um pesadelo para centenas de compatriotas.”

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