Pesos e medidas francesas

País debate por que discurso do 'Charlie' é protegido e o de humorista antissemita é punido

ANTHONY FAIOLA & GRIFF WITTE, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2015 | 02h01

As charges provocam os terroristas. O profeta Maomé chora. Uma devota muçulmana mostra uma parte da perna, etc. Elas brincam com o papa Francisco, com a chanceler alemã Angela Merkel, com o primeiro-ministro francês Manuel Valls. Com freiras, padres, rabinos e imãs. Riem da própria morte.

A última edição do Charlie Hebdo, o semanário satírico atacado na semana passada por extremistas islamistas por ridicularizar o profeta Maomé, tornou-se um símbolo da liberdade de expressão assim que chegou às bancas de jornais, na quarta-feira. Entretanto, num país que no último domingo mobilizou milhões de pessoas em apoio ao direito do jornal de zombar livremente, a França também teve de enfrentar um debate cada vez mais intenso a respeito dos limites da liberdade de expressão nas suas fronteiras.

Na quarta-feira, as autoridades francesas prenderam e acusaram um notório comediante, Dieudonné M'bala M'bala, por "glorificar o terrorismo" numa ambígua postagem no Facebook, no domingo, que para alguns parecia apoiar o atirador que matou quatro num mercado judaico na sexta-feira.

Desde os ataques da semana passada, pelo menos 54 pessoas enfrentaram acusações semelhantes - incluindo menores brincalhões e beberrões grosseiros e falastrões. As autoridades usam como base uma lei antiterror muito rigorosa aprovada no ano passado que permite acelerar o andamento dos processos e emitir sentenças de prisão mais duras. Por exemplo, um infrator preso no sábado já foi sentenciado a uma pena de quatro anos. O Ministério da Justiça emitiu novas ordens para os promotores reprimirem com mais força "atos ou discursos antissemitas e racistas".

Laurent Léger, jornalista investigativo do Charlie Hebdo, que sobreviveu ao ataque da semana passada, disse que não há comparação entre o jornal e Dieudonné - comediante francês de origem camaronesa que popularizou a saudação nazista e brinca a respeito do Holocausto. "Dieudonné não entende o espírito do Charlie", disse Léger. "O Charlie jamais glorificou o terrorismo. Dieudonné é apressado demais ao afirmar que sua liberdade de expressão está sendo restringida. Sua atitude está apenas tornando a situação mais difícil e aumentando a confusão que destrói o nosso país."

Contestação. Outros discordaram, afirmando que a França corre o risco de acabar com o próprio direito que pretende proteger: a liberdade de expressão. "Podemos falar perfeitamente de hipocrisia nesse caso", disse Adrienne Charmet, coordenadora de campanha para La Quadrature du Net, um grupo que defende os direitos dos internautas em Paris. "Nos últimos dias, vimos muitas pessoas condenadas por falar coisas, ainda que condenáveis, e recebendo sentenças muito exageradas. Alguns a consideram a pior resposta possível ao ataque da semana passada, porque muitos dos que falaram essas coisas estavam bêbados ou eram adolescentes que desconheciam o peso de suas palavras. Mas há outro segmento da população que concorda, porque acha que essas pessoas estão se tornando cúmplices do terror. De qualquer maneira, esse cerceamento da liberdade de expressão é uma traição à marcha de domingo passado."

O Charlie Hebdo foi indubitavelmente o item mais procurado na quarta-feira na cidade. As filas estendiam-se por várias quadras, enquanto os parisienses procuravam exemplares que foram vendidos no prazo de poucos minutos. Uma tiragem inicial de 3 milhões de exemplares foi aumentada para 5 milhões quando as bancas em todo o país ficaram sem o semanário.

O conteúdo dessa edição alimentou a controvérsia. Suas 16 páginas estão repletas do mesmo tipo de humor irreverente e obsceno que tornou o Charlie famoso. As sátiras não pouparam ninguém. Em uma charge, dois terroristas mascarados estão no paraíso e um pergunta ao outro: "Onde estão as virgens?" "Estão com o pessoal do Charlie, seu fracassado", responde seu cúmplice. Outra ilustração mostra um chargista exausto e aflito se esfalfando sobre a prancheta, com uma legenda que diz: "As charges do Charlie Hebdo: um trabalho de 25 anos". Na ilustração seguinte, atiradores armados massacram pessoas com um Kalashnikov, com a legenda: "Para um terrorista, um trabalho de 25 segundos". Conclusão: "Terrorismo: um emprego para preguiçosos".

Como é típico do Charlie Hebdo, o objetivo é provocar, agitar o debate e fazer rir - e também lembrar a alguém que pensa de outra maneira que a leitura pode ser claramente desconcertante. O editorial do jornal faz uma vigorosa defesa de valores seculares, afirmando que os jornalistas riram quando ouviam que os sinos da Catedral de Notre Dame tocavam em sua homenagem.

"Os milhões de anônimos, todas as instituições, todos os líderes mundiais, todos os políticos, todos os intelectuais e as personalidades da mídia, todos os dignitários religiosos que essa semana proclamaram: 'Eu sou Charlie' precisam saber também que isso significa: 'Eu sou o secularismo'", diz o editorial. Após a marcha no domingo, o comediante escreveu: "Depois dessa marcha histórica, um momento mágico igual ao Big Bang que criou o Universo ou em grau menor comparável à coroação de Vercingetorix (o antigo rei), vou para casa. Posso dizer que essa noite, no que me diz respeito, eu me sinto Charlie Coulibaly".

Charlie Coulibaly é uma referência ao Charlie Hebdo e a Amedy Coulibaly, o atirador que matou quatro pessoas no mercado judaico. Numa segunda postagem o Facebook, na segunda-feira, o comediante procurou esclarecer seu comentário, afirmando que seu propósito foi "fazer rir, e rir da morte, porque a morte zomba de todos nós, como Charlie sabe muito bem". E concluiu: "Eles me consideram Amedy Coulibaly ao passo que não sou diferente de um Charlie".

Discursando na Assembleia Nacional, Valls, procurou estabelecer uma distinção entre as charges criativas do Charlie Hebdo e o humor com base no ódio do comediante. "Existe uma diferença fundamental entre a liberdade de ser impertinente e o antissemitismo, o racismo, a glorificação de atos terroristas e a negação do Holocausto", disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Anthony Faiola e Griff Witte são jornalistas

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